ANALOGIAS E INTERPRETAÇÕES

Por Wilson César (refinaria77.blogspot.com – wilsondesign@hotmail.com)

Sempre gostei de analogias. Como diz o dicionário: o ponto de semelhança entre coisas diferentes. Falar sobre algo através de linhas de pensamentos que percorrem vastos terrenos distantes da ideia que se deseja comunicar inicialmente. Fugir do literal. Não se trata da famosa ‘enrolação’ ou do ‘falou, falou e não disse nada’. Chamaria de ilustração, um recurso para enriquecer o tema, até mesmo contribuindo para uma melhor percepção e entendimento por parte do leitor e/ou ouvinte. Cito como exemplo as diversas analogias que fazemos – em diversas situações cotidianas – com o futebol. Este esporte ilustra e exemplifica o empenho, objetivos, metas, conquistas que temos diariamente, tanto na vida pessoal quanto na profissional. Até mesmo nas derrotas. Isso mostra que certos vocabulários estão tão enraizados em nossa cultura que colocá-los somente em seus lugares de origem é praticamente impossível. Além de perdermos uma boa oportunidade de ‘divagar’!

Gosto muito de ‘brincar’ com as táticas futebolísticas – como tantos outros, um amante – mas existe um ofício que aprecio demais o fervor e a intensidade da forma como este se manifesta: atuar. A maneira como o ator interpreta, como constrói o personagem, como se comunica é fascinante. Conhecendo e entendendo o processo que o leva a tal façanha é ainda melhor. Quão rico é ver como a pesquisa foi feita, as referências, os laboratórios, o contato ‘na pele’ com aquilo que se almeja dar vida para que o processo de construção seja materializado, ganhe e ofereça ‘veracidade’ ao público. Trata-se de uma das mais antigas formas de manifestação artística e de entretenimento que o homem desenvolveu, e porque não dizer, uma das mais antigas profissões. Um ator está muito mais próximo de um designer do que podemos imaginar.

Lembro de ter lido em uma entrevista do ator Caio Blat, uma frase que dizia mais ou menos assim: ‘o grande ator é aquele que consegue desaparecer no personagem’. A entrega total, aliada a técnica e a sensibilidade de quem e para quem está criando. Temos notícias de atores que se entregam de tal forma que chegam a ganhar ou perder quilos e quilos. Uma imersão que vai muito além dos textos. Christian Bale, conhecido por interpretar o ‘Batman’, emagreceu tanto (mas tanto!) para fazer o filme ‘O operário’ (ótimo, diga-se de passagem!!!) que chega a ser surreal o seu estado físico! Só para citar um entre tantos. Interpretar faz parte deste ofício tanto quanto do design, para quem cria e para quem vai consumir. O processo é o que nos aproxima. É o que valoriza e dá consistência ao trabalho. Sem processo, sem laboratório, pesquisa, uma alta dose de entrega, não existe construção. Existe apenas o improviso. Como os atores, improvisar é um ótimo recurso, salva uma cena, uma apresentação e demonstra capacidade em situações de urgência e de risco. Mas nada substitui o controle proveniente de um verdadeiro processo de criação. E este, muitas vezes solitário, é o que nos dá confiança para enfrentar o público.

 

 

 

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