A abcDesign conversou, no último mês de fevereiro, com Rafael Cardoso, escritor e historiador da arte, PhD pelo Courtauld Institute of Art/ Universidade de Londres, sobre a presença do Revival – melhor dizendo, a influência Rêtro – no mercado atual.

Rafael é autor de importantes livros relacionados ao mundo do design como os títulos Design para um mundo complexo (Cosac Naify, 2012); Impresso no Brasil, 1808-1930: Destaques da história gráfica no acervo da Biblioteca Nacional (Verso Brasil, 2009), A arte brasileira em 25 quadros (1790-1930) (Record, 2008), O design brasileiro antes do design: Aspectos da história gráfica, 1870-1960 (Cosac Naify, 2005), Uma introdução à história do design (Blücher, 2008, 3ª ed.), entre outros já publicados. Além disso, é professor da Escola Superior de Desenho Industrial/Universidade do Estado do Rio de Janeiro, assim como curador independente e perito judicial.

Confira, abaixo, a entrevista na integra.

adcDesign: Cada vez mais comum no mercado, as empresas tem apostados no Revival nas linhas de seus produtos. Quais seriam os fatores que têm contribuído para o sucesso dessas peças no mercado? Isso vai além das linhas bonitas por trás desses produtos?
Rafael Cardoso: A motivação é mais profunda. O Retrô trabalha a nostalgia e toca em emoções profundas. As pessoas costumam acreditar que o mundo era melhor, mais simples, no passado. Portanto, tudo que remete ao passado é reconfortante. Ainda mais se for um passado idealizado, despido dos problemas (que também existiam, de fato). 

 abc: De acordo com um artigo publicado em 2009 no site In design, o Revival de produtos acontece com maior intensidade no final dos séculos, pois seria uma espécie de balanço do que aconteceu durante os últimos cem anos. Por que, então, na primeira década do século XXI a utilização do design Rêtro tem tido essa presença tão marcante dentro mercado atual?

RC: A avaliação de que os Revivals acontecem mais em final de século me parece um tanto discutível. Gostaria de ver uma análise histórica mais fundamentada- mais dados, digamos assim – antes de aceitar essa premissa. A nostalgia recrudesce sempre em momentos de insegurança, seja qual for a década ou século.

abc: Quais foram os principais períodos onde foi perceptível, com mais intensidade, a presença do Revival no mercado? Se esses períodos existiram, qual foi o motivo desse resgate?

RC: Essa pergunta é boa! Que eu saiba, não existe nenhuma investigação histórica detida que tenha se debruçado sobre a questão. O chamado ‘Revival’ tem sido um fator estilístico marcante do século 19 para cá – pelo menos, desde o Gothic Revival, na Inglaterra, entre as décadas de 1820 e 1860. Mas, pode, muito bem, ser anterior. O passado sempre pode ser empregado como ‘espelho distante’, no dizer da historiadora Barbara Tuchman.
abc: Qual é o perfil de público que o designer pretende alcançar quando trabalha com essa releitura do passado?
RC: Nenhum público está imune à nostalgia. A força do Retrô reside precisamente no fato que sempre há um pedacinho do passado que irá apelar a cada um.

 

abc: Qual é a maior preocupação que o designer precisa ter quando trabalha com design Retrô? Como o designer pode conciliar o desenvolvimento de um produto novo com linhas e cores já fora de moda? O que seria a originalidade desse projeto?
RC: A maior preocupação do designer deveria ser de não cair no pastiche – ou seja, a simples imitação piorada do que já foi feito. Fazer algo do passado, reviver realmente para o público atual já é um desafio e tanto. Não simplesmente copiar as aparências, mas tentar recuperar o olhar da época e o espírito que o moveu. Se o designer conseguir fazer isto, seu projeto irá além da mera nostalgia e trará algo novo. Agora, isto é fácil de falar! Eu não sou designer, e imagino que deva ser muito, muito difícil.

 

abc: Qual pode ser considerada a principal característica de um produto Retrô?

RC: Não saberia responder isto de um modo geral, além da constatação óbvia de que ele busca remeter a uma referência passada.

 

abc: Esses produtos estão associado ao resgate de valores, releitura e continuação de determinada época , ou estão aliados, exclusivamente, ao aumento das vendas? 
RC: Acho que podem estar ligados a questões mais ambiciosas de bem-estar, conforto e prazer. Infelizmente, a maioria do que se vê é simples truque mercadológico mesmo. Não que isto seja exclusividade do design retrô…
abc: Como o designer consegue resgatar todos os elementos de uma época que, em muitos casos, ele não viveu?  

RC: Os que conseguem, talvez o consigam exatamente porque não têm consciência do tamanho do desafio! É como aqueles caras que andam em cima da corda bamba e, dizem, nunca olham para baixo. Um historiador provavelmente não se meteria a fazer esse tipo de resgate. Mas, a gente vê reconstituições de época incríveis no cinema, todos os anos. A coisa é tão complicada, que só dá para fazer fazendo.

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