No início do mês de julho, o alemão Frank Zierenberg, um dos responsáveis pelo iF Product Design Award, esteve no Brasil para promover esse que é um dos mais reconhecidos prêmios internacionais de design. A abcDesign aproveitou a oportunidade e bateu um papo com ele no espaço do Centro de Design Paraná – o escritório que representa o iF no Brasil – sobre a importância do prêmio, sustentabilidade, o atual papel do designer, as mudanças do design nos últimos 50 anos, marca, entre outros assuntos. Também participaram da conversa, a então assessora de comunicação do Centro, Thais Kaniak e Laura Schafer.

Confira a entrevista logo abaixo.

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Centro de design: Qual é a visão do iF Awards para os projetos registrados de diferentes países?

Frank: A visão não depende só do país, eu acredito que isso seja uma visão global. Nós começamos há 60 anos para mostrar o poder do design para os fabricantes e o público, também para ajudar os designers. Essa é a nossa meta como uma organização não governamental. Claro que isso envolve diferentes atividades. Costumava ser só um prêmio de design para produtos e agora nós damos três prêmios profissionais de design, o iF Design Awards e um grande prêmio de design para estudantes. Também existem outras atividades. A meta de apoiar o design, mostrando aos fabricantes que o design é uma ferramenta de negócios, não só é um fator de custo, é uma mudança global. Eu sinto isso em todo país que visito.

Centro de Design: Existe uma grande participação das empresas no iF tanto do Brasil como de outros países?

Frank: Nós veremos. Acredito que sim. Recentemente, trabalhamos nos serviços que fornecemos para os nossos ganhadores. Primeiro de tudo, combinamos três prêmios dentro de um grande prêmio. Agora, é bem fácil para os participantes se registrarem em diferentes categorias. Temos design de comunicação e design de produto ao mesmo tempo e já contamos com quatro exibições e uma exibição online bem atualizada. Nós fazemos um livro com os ganhadores e você pode usar o logo por tempo ilimitado. Isso está sendo pago agora com mais e mais pessoas. Eu acredito que é difícil você encontrar outra organização no mundo que tem este tipo de benefícios para os participantes. Para o iF Design Award 2013, já superamos, ainda na fase inicial, o número de inscrições do ano passado.

Centro de design: Como é a participação do Brasil no iF Awards?

Frank: Tradicionalmente, tem sido muito boa. Nós trabalhamos em 53 países. O Brasil, considerando o número de participações, está sempre entre a 8ª e a 10ª posição. Os números batem, por exemplo, com os da França e Grã-Bretanha.

Centro de design: Qual é a sua visão do mercado para o design brasileiro?   

Frank: Eu não posso dizer muito sobre o mercado nacional, pois existem experts para falar sobre o mercado brasileiro. Eu sou da Alemanha e só visito o Brasil duas vezes ao ano, então eu penso que não seria apropriado dizer algo sobre o mercado brasileiro. Na Europa, os designers brasileiros têm grande potencial. Tem muitas coisas acontecendo, muitas experimentações e vocês estão usando, tradicionalmente, o artesanato que vocês têm. Recursos de habilidades que fazem os produtos serem bem especiais. O design de produto tem um potencial enorme. São ricos os recursos de artesanato brasileiros, e a criatividade e habilidade dos designers brasileiros também. Penso que isso tenha alguma coisa a ver com o passado do país, pois há vintes anos os  brasileiros tinham que improvisar, pegar coisas que já estavam disponíveis e transformá-las em algo novo, uma vez que não tinham todas as ferramentas e recursos que, talvez, os designers europeus já dispunham. Se você olhar, por exemplo, o “Campana Brothers”. Eles improvisam um monte e têm essa característica de também combinar produção industrial e habilidade artesanal. Agora isso é bem popular na Europa, ao menos. Eu não sei no Brasil. Isso porque a maioria dos produtos vêm dessa produção industrial de massa que de alguma maneira não tem muita alma. Pensando como design de produto, os designers brasileiros deveriam tomar conta dos recursos artesanais brasileiros e tentar usá-lo na era industrial. Tem alguns outros países que servem de exemplo onde a tradição artesanal se perdeu; e a rica herança, portanto, se perdeu. Outros países, como a Itália, continuam a manter essa habilidade artesanal. Eles têm indústrias de vidro no norte da Itália que fazem coisas que não se faz em nenhum outro lugar do mundo. Não é de admirar que o Campana Brothers produzem com a indústria italiana, pois eles tem essa combinação de artesanal com indústria e ambos estão nutrindo um ao outro. A comunidade de design brasileiro tem que tomar cuidado dessa herança e de não perdê-la.

Já quanto ao design de comunicação brasileiro, esse já está no nível internacional. Você pode ver que ele frequentemente recebe prêmios em competições internacionais. Grandes corporações como a Coca-cola, Nestlé ou Unilever têm agencias locais para ajustar as campanhas deles para o mercado local. Eles já são jogadores internacionais.

abcDesign: Atualmente, nós falamos muito em meio ambiente e crises econômicas. Quando você encontra um produto considera todas essas coisas: ser amigo do meio ambiente e pensando na economia ao mesmo tempo? 

Frank: Sim. O tema sustentabilidade é um dos nossos critérios. Mas eu penso que globalmente o maior desafio que enfrentamos é ter padrões comuns para avaliar o impacto no meio ambiente de um produto, o que não temos agora. Não existem números. Existem modos diferentes, como a pegada do CO2, para avaliar. Para realmente dizer que um produto é sustentável é bem complicado, pois tem que olhar desde o nascimento até a morte do produto. Quais são as fontes dos materiais, como é produzido, transportado, comercializado, usado e, então, descartado. Para olhar todas essas coisas, você precisa de especialistas. Eu acredito que se necessite de um tipo de números finais para avaliar isso. Já existem vários rótulos dizendo: nós somos ecológicos. E isso é usado, infelizmente, só como uma ferramenta de mercado. Pessoas dizem que são verdes, mas o que isso significa? Por que você é verde? Você está só dizendo isso. Como você pode provar isso? Nós precisamos desse tipo de padrão internacional para produtos, onde você pode com uma ou duas olhadas avaliar o impacto de um produto no meio-ambiente. Um bom exemplo para isso é a embalagem de leite. Tem a garrafa, a Tetra Pak e o plástico bem fino. Qual desses você pensa ser o mais ecológico? A maioria das pessoas pensa que é a garrafa de vidro, mas, na verdade, é o pacote de plástico, pois a garrafa de vidro usa bastante energia para ser produzida. Precisa de muito aquecimento e fogo. Também é pesado. Por exemplo, se você tiver 600 litros de leite serão 600 quilos de leito só. Mas aí você tem, talvez, 100 quilos só de vidro para transportar. A embalagem só por ela é pesada. Se você colocar a garrafa de vidro no caminhão terá muito ar entre elas, então os espaços no transporte serão perdidos. A Tetra Pak é quase a mesma coisa da garrafa de vidro, mas em níveis diferentes. A energia em produção e o transporte estão ok, porque não tem ar, consegue estocar e não é tão pesado. Mas por outro lado, isso é um composto de material, alumínio, papel e plástico. Isso é difícil de reciclar. Esse é o lado negativo da Tetra Pak. O pacote de plástico é bem fino, é só um material, você pode reciclá-lo bem facilmente e não tem muito ar para transportar; é bem leve. Essa é a embalagem mais ecológica. A maioria das pessoas pensa que é a garrafa de vidro, pois isso é antigo. É o jeito tradicional e nós temos o sentimento de que o tradicional é o mais ecológico.

Centro de design: Talvez porque nós podemos reutilizá-la. Talvez eles pensem que podem reutilizar as garrafas e o plástico não.

Frank: Plástico também tem uma imagem negativa. Eles pensam que vidro é ecológico, plástico não.

abcDesign: Mas você pensa que o designers estão pensando diferente atualmente?

Frank: Eles realmente deveriam, mas o que eu digo é que este é um tópico bem complicado. Nós do iF fizemos um prêmio ecológico em 1985, penso eu, até 1993. Bem cedo. Nós decidimos não fazer só um prêmio de design ecológico, pois era estranho ter um ecológico e outro não. Todo o produto tem que ser ecológico, então esse é um dos nossos critérios. É muito difícil para nós avaliarmos. Tem muita discussão no júri sobre isso. Nós gostaríamos de ter esse tipo de padrão; números, porcentagens ou outra coisa para avaliar o impacto deles ao meio ambiente. Se você quer importar alguma coisa para um mercado, precisa ter certo padrão ecológico. Todo mundo sabe e concorda. Existem alguns movimentos e pessoas trabalhando nisso. Vamos dizer que este é o passo final que ainda está faltando.

abcDesign: O prêmio começou em 1953. Um bom tempo atrás. Temos agora nações que são enormes, como a China, Índia e o Brasil. Como você enxerga o design hoje, nessa perspectiva de nações crescendo. O que mudou?

Frank: Muitas coisas mudaram. Penso que a função dos objetos não é mais o fator decisivo em produção, pois com a tecnologia é muito difícil ter uma função que ninguém mais tenha por um longo período de tempo. Talvez tenha uma tecnologia de ponta e seja o primeiro a ter isso, mas só por meio ano, ou um ano. Há 20 ou 30 anos, isso era diferente. Você tinha tecnologia e uma vantagem, e talvez você tivesse isso por sete, oito anos. Agora, você precisa alguns valores extras. Um desses valores é a marca, que tem ganhado mais importância. É quase como um tripé. Você é um usuário da Apple e isso significa que você tem certas características e certo estilo. Isso não era o jeito há trinta anos. No futuro serviço e experiência serão mais importantes. Não tanto sobre o telefone celular, mas a experiência que isso te habilita a ter. Qual é a experiência quando você compra? Um bom exemplo para experiência e marca é o Nespresso. Eles só vendem café. Não é nada especial. Porém, eles fizeram disso uma experiência. Você vai dentro da loja, tem certo estilo e é bem sofisticado. Tudo o que eles fazem é vender café e cápsulas. Fazem disso algo bem maior porque é uma experiência, é um jeito de olhar o mundo. O ato é bem trivial: comprar café; mas comprar café agora, com Nespresso, tem quase uma áurea de estar comprando uma espécie de joia. Esse tipo de coisa mudou muito. Está se movendo para longe do produto físico, para áreas virtuais: serviços, experiências e marcas.  Mais sobre sentimentos e imagens. Isso é sobre o que o seu produto pode fazer e os outros não. Por isso você o compra.

Centro de Design: Qual é a importância do prêmio iF para uma empresa?

Frank: Primeiramente, você tem que ter um diferencial para um designer e para uma empresa. Para uma empresa, é a forma de diferenciá-los na competição, pois se for agora para uma loja, vai achar talvez uns 50 celulares, e você não tem tempo, ou não quer olhar todas as diferentes funções e detalhes. Ter um rótulo dizendo pelos juris independentes que esse é um bom design. Como consumidor e usuário dá a você argumentos extras para comprar o produto. Este é um dos argumentos. O outro argumento é dizer ao mundo que eles estão usando design como ferramenta e que eles são empresas de design. Nós temos, é claro, boas vantagens no iF para exibições ao redor do mundo. Temos 30.000 projetos. Eles estão em um tipo de clube – vamos colocar assim – e a base de dados é como se fosse um museu. É quase como uma honra estar lá.

Para os designers, isso pode ajudá-los a provar a sua capacidade com o design, pois como designer você tem o problema de que alguns aspectos do design não podem ser mensurados em números, ou provados. Se você é o produtor e me contrata para fazer um design para você, e eu te dou um design como um sketch ou modelo, este é o melhor design. E aí o produtor pergunta: por quê? Prove para mim. Então você tem que dizer: eu não posso provar, pois não se pode provar alguns aspectos. Por exemplo, a estética não dá para se colocar em números. Não se pode dizer essa estética é melhor do que aquela. Pode-se fazer alguns testes para dizer que isso é mais dinâmico que aquilo. Basicamente existem componentes do design que não pode ser colocado em números. Mas aí existem clientes e produtos que estão acostumados com números e estatísticas e eles dizem que se investirem em tal coisa aumentará em 5% e em outro 7%, então escolha essa opção. Eles estão acostumados com números. O iF pode te dar alguma ajuda, pois é o júri independente que afirma que você fez um bom trabalho. Você pode colocar isso em seu portfólio e dizer que não é você que está dizendo que é um bom designer.

abcDesign: Luigi Colani afirma que a tecnologia e o que a envolve é um tipo de lavagem cerebral. Como, então, um designer pode ser único e não só pensar fora da caixa, mas fazer uma nova e ser diferente em meio a outros designers e empresas. Como ser único hoje em dia?

Frank: Agora nós entramos em uma discussão bem difícil, pois a minha opinião o designer tem o problema que design é tanta coisa ao mesmo tempo. Muitas coisas são chamadas de design e muitas posições diferentes dentro do design são todas chamadas de design. Se comparar com a música, existem os músicos de orquestras que tocam o violino. Ninguém sabe quem ele é. Ele é parte da orquestra e está entregando um serviço, um trabalho. Aí tem o superstar como os Rolling Stones, que estão entregando quase a mesma coisa, mas por 40 anos estão produzindo música boa. Aí tem um novo músico que ele vem com uma ou duas músicas boas. É bem legal e popular. Mas, depois de cinco anos ninguém mais sabe dele. Tem também a música pop, que não é tão complicada, mas bem legal. Acredito que no design você também tenha todos esses aspectos. Mas, com a música isso é claro e com o design não. Existem algumas pessoas que se opõem fortemente ao Colani porque eles iriam dizer: designers não deveriam fazer outra caixa. Eles são prestadores de serviço. Eles estão lá como o violinista na orquestra para preencher as necessidades do seu cliente. Neste caso que é a empresa e o usuário do produto. Mas se empurrar seu ego e o fazer ser bem criativo criando outra caixa, então ele não entrega o serviço, ele está lá para criar desejos. O que significa que o usuário vê isso e quer ter isso. E então o produto deveria ser usável pelo usuário e preencher as suas necessidades. Esse é o trabalho dele. Mas outros designers, talvez, estão em outras posições. Eles olham isso de maneira diferente. Eles dizem que às vezes você precisa trabalhar contra a empresa e fazer coisas grandes acontecerem e convencer eles de uma direção totalmente diferente. Eu entendo o que o Colani quer dizer com isso. Eu respeito isso, mas isso seria, se você voltasse à música, como dizer que, como músicos, nós precisamos de inovadores para fazer um som totalmente diferente que nunca foi ouvido antes. Ou com instrumentos totalmente novos e estruturas novas. Colani tem essa visão e essa urgência de explorar novos territórios e empurrar a indústria para os limites do design e da tecnologia, mas para mim, pessoalmente, isso é só um dos aspectos do design. Tem vários outros aspectos também. É uma discussão complicada e interessante. É uma boa pergunta e estou pensando muito sobre isso. Às vezes nos precisamos de mais palavras para o design, porque tudo é chamado de design. Coisas que estão bem próximas a arte, marketing e engenharia são chamadas de design. Se perguntar para dez designers o que é design, você ganha 12 opiniões (risos). Nós, como designers, não estamos tão certos do que é o design. É por isso que algumas instituições como o Centro de design e iF continuam sendo importantes, pois elas mostram para as pessoas o que é design, os diferentes aspectos do design. Que design é mais do que uma coisa só. Mais do que estilo e moda, pois muitas pessoas pensam que é sobre coisas bonitas. Que custam muito dinheiro. Designer é como um artista, que faz coisas se tornarem bonitas. Senta em seu estúdio e desenha todo o tempo. Existem pessoas e instituições para dizerem que não é só isso. Se é só estilo não é um bom produto, pois o produto não usável. E um produto que não é usável não é um bom design. Uma coisa que só é bonita não é um bom design. Isso é um mal design, pois design tem sempre a ver com ser usável e preencher as necessidades do usuário.

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