Na edição 33 da abcDesign, trazemos uma resenha sobre o livro no da Taschen, “Product Design in the Sustainable Era, com curadoria do designer brasileiro Dalcacio Reis.

O livro é uma coleção de produtos e conceitos incríveis, alguns esperando a tecnologia alcançar, outros prontos para entrarem no nosso dia a dia (faltando investimentos ou que alcancem preços competitivos no mercado) e outros já em uso em alguns países.

Focado em eletrônicos, mobilário, utensílios domésticos, embalagens, esporte e moda, ele já está a venda nas melhorias livrarias do Brasil.

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Conversamos um pouco com Dalcacio sobre o tema do livro para saber do ponto de vista dele sobre a quantas estamos nesse longo caminho.

abcDesign: O discurso em relação à sustentabilidade vem se fortalecendo a cada dia, mas ainda temos um longo caminho pela frente, você arriscaria dizer em que ponto da estrada estamos?

Dalcacio Reis: Sem dúvida, no começo. Apenas começamos a trilhar este caminho. O sistema do qual fazemos parte não é sustentável, portanto, os movimentos em direção à sustentabilidade ainda requerem mais força do que se utilizássemos os processos usuais.

abc: Diante dos projetos que você pesquisou, quais os caminhos do design que têm se mostrado viáveis e aplicáveis nos dias de hoje?

DR: Temos alguns que estão acontecendo com maior frequência. Posso citar projetos ecoeficientes, que prezam pela otimização dos recursos (energia, água e matérias primas), como os artigos esportivos da Adidas (os tênis Adizero e Supernova Riot 2 e Rainbeau Mars Signature Collection), os mobiliários da PearsonLloyd (DBO Commode, Cobi e Soul), carregador Nokia (Zero Waste).

Temos também a substituição dos produtos descartáveis em troca dos reutilizáveis (fraldas FuzziBunz e absorventes Lunapads); produtos com madeira certificada (são vários no livro); produtos feitos com material reciclado, todo ou em parte (Motorola Motocubo e Renew) ou material reutilizado (Neumática, Stockholm City Mission Bag, Urthbags); carregadores à base de energia eólica, solar, cinética e força humana (K3, Solio, BioLogic ReeCharge).

Projetos/produtos voltados para o pilar social (Project 7, Belu, Traidcraft, Dreamball, Masiluleke Home HIV Test Kit, Peepoo, Talamanca Cocoa);

Produtos biodegradáveis/compostáveis que levam em conta a sua durabilidade (cadeiras infantis Parupu, pratos e vasilhas Wasara, as embalagens Help Remedies, sacolas 60Bag);

Produtos que utilizam a força humana para gerar energia (família E e Next de aparelhos de ginástica do Índio da Costa AUDT, Eton Radios). Como vimos existem muitos caminhos e ainda muitos outros para trilharmos.

abc: Por outro lado, você acha que existem questões urgentes que ainda são pouco abordadas pelo design?

DR: Difícil dizer o que é mais urgente, mas com certeza precisamos repensar o modo como desenvolvemos os produtos. Pesquisar e porque não dizer, desenvolver materiais. Entender melhor o ciclo de vida de um produto e parar até para se questionar por que que utilizar um material que dura 200 anos se o produto só dura uma semana, um mês, um ano? Abordar mais os projetos sociais, rever o nosso conceito de “lucro”.

Precisamos que um produto tenha um novo lançamento a cada dois meses? Tempos atrás pesquisei os lançamentos do iPod e vi que foram lançados 54 modelos em um período de 100 meses (até 2009), aproximadamente 1 lançamento a cada 2 meses! Você compra um iPod XYZ com 8 Gb e, poucos meses depois, sai um novo modelo do mesmo XYZ com 16 Gb!! Se eu soubesse disso esperaria mais dois meses e compraria o de 16 Gb! O designer faz parte deste ciclo, ciclo que precisa mudar.

Biologic Recharger – Carregado de aparelhos eletrônicos para ser acoplado em bicicletas. Design da Miniwiz.

Biologic Recharger – Carregado de aparelhos eletrônicos para ser acoplado em bicicletas. Design da Miniwiz.

 

abc: Alguns projetos mostram soluções que parecem ser extremamente viáveis, como a iluminação pública solar, o uso de energia cinética, equipamentos caseiros de compostagem, assim como o uso de plástico biodegradáveis (feitos de milho, cana-de-açucar),etc. Custo é o maior impedimento? Ou o problema é mais complexo?

DR: O problema e a solução passam pela informação. Sem informação corremos o risco de nos empenharmos em questões menos importantes ou mesmo negligenciarmos outras vitais. Custo sempre é um impedimento e toda mudança requer um esforço maior.

Existem várias soluções que, quando olhamos, nos perguntamos “mas porque não é assim em toda a cidade?”, é o caso da iluminação pública que utiliza energia solar. Numa cidade como o Rio de Janeiro já poderíamos utilizar este tipo de iluminação há algum tempo. O custo inicial seria alto? Provavelmente sim, mas a conta não está apenas no custo de implementação, a economia no médio e longo prazo justificaria o investimento. Mas, especificamente falando de iluminação pública, temos as questões políticas, que muitas vezes envolvem a duração de um mandato ou outros tipos de ações que rendem mais, politicamente falando.

Falando de poder público, ele deveria ser o grande incentivador dessas mudanças em direção à sustentabilidade. Imagine se todas as casas tivessem composteiras (desde as mais caseiras até as mais tecnológicas), a cidade não teria uma baita economia no que diz respeito à coleta de lixo, na administração do volume de lixo nos aterros sanitários entre outras vantagens? Porque não incentivar ações como estas?

Sun station – Julen Aguirre-Bielschowiski criou este poste de iluminação pública que usa energia solar. Simples e muito eficiente. Porque não estão na maioria das cidades?

Sun station – Julen Aguirre-Bielschowiski criou este poste de iluminação pública que usa energia solar. Simples e muito eficiente. Porque não estão na maioria das cidades?

 

Ainda falando em projetos viáveis, muitas empresas tomaram a iniciativa, por exemplo, de captar a água da chuva para utilizar em limpeza, irrigação, etc. Essas empresas tiveram um custo inicial para captar e distribuir esta água, mas isso foi um investimento. Pergunte a essas mesmas empresas quem saiu ganhando com esta iniciativa. Todos nós, mas as empresas principalmente. Essa economia é traduzida em $$ e acaba por incentivar outros projetos ecoeficientes nas mesmas empresas e em outras que vêem claramente os cifrões no fim do túnel. Com incentivo do poder público, as coisas andariam mais rápido e melhor.

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Compost All – Sistema de compostagem residencial que separa o resíduo orgânico da água.

 

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Conceito da Frogdesign

 

abc: Como comentou Leif Huff, num dos textos de abertura, o designer deve trabalhar com todo o sistema envolvendo aquele produto ou serviço, e não apenas no seu desenvolvimento propriamente dito. Pode ser que no exterior esse tipo de modelo de atuação do designer já exista, mas aqui no Brasil me parece que ainda estamos longe disso. Uma saída seria reforçar esse tipo de pensamento nas universidades, na formação dos designers?

DR: Você tocou, no que acredito, ser o ponto chave. Já mencionei a importância da informação e acrescento também a importância da formação. O Sr. Huff  cita no livro sua experiência com o projeto “The Steel Cow” que ilustra bem a necessidade de conhecermos o projeto como um todo, entender e conhecer o sistema em que o produto ou serviço está inserido. “The Steel Cow” era uma vending machine de leite que a primeira vista parecia ser interessante (e sustentável) por utilizar o conceito de refil.

Quando se estudou e entendeu todo o ciclo do produto viram que o buraco era mais embaixo, havia muito desperdício na cadeia, na alimentação da máquina com o leite, quantidade de pessoas envolvidas no processo, muito desperdício de água na lavagem (tanto da máquina quanto das garrafas) e por aí vai.

Recentemente vi um projeto de uma embalagem de tênis (muito divulgada em sites e blogs de design) que era produzida com polpa de papel (reciclado). De novo, à primeira vista, parece ser uma grande ideia (e até é), mas o que pouco se divulgou nos mesmos sites e blogs é que essa embalagem não emplacou, e não emplacou porque ela não era produzida dentro da fábrica do tênis, era produzida em um local bem distante. Com isso, se tornou “insustentável” já que no fator transporte, a embalagem perdia bastante. O recado dado pelo diretor da renomada IDEO é esse, precisamos conhecer o todo, não adianta trazer um material sustentável simplesmente, é preciso conhecer toda a cadeia, da extração da matéria-prima ao descarte, do transporte ao uso.

Riti Printer – Conceito de impressora da Samsung que usa a borra de café como tinta.

Riti Printer – Conceito de impressora da Samsung que usa a borra de café como tinta.

 

abc: No curso da sua pesquisa, você encontrou erros comuns nos projetos, no sentido de “você quer parecer sustentável, mas na verdade só parece”? Que tipo de erros?

DR: Sim encontrei produtos desta natureza. Vi um produto, por exemplo, que já se intitulava “Eco” na embalagem. Li a embalagem toda e o máximo que vi foi uma chamada para a participação deste produto numa ONG relacionada com projetos ambientais. Entrei no site da ONG e não achei nada falando do produto em questão (nem da empresa). Entrei no site do produto e só depois de navegar bastante consegui ler um trecho falando que o papel do produto (o produto é 100 % feito com papel) não passava por processos de clareamento (não utilizava cloro). Tempos depois a embalagem mudou um pouco e melhorou as informações, mas apenas as relacionadas com a ONG, ainda não falava do processo do papel. Em suma, um erro básico de divulgação de informação. Este não é um exemplo de greenwashing, mas também encontrei projetos que tentavam pegar a carona “Eco” e na verdade eram bastante superficiais. Não consegui sequer identificar uma clara intenção de inserção nos conceitos da sustentabilidade.

Aquadut – Bicicleta conceito da IDEO para armazenagem e filtragem de água para países em desenvolvimento.

Aquadut – Bicicleta conceito da IDEO para armazenagem e filtragem de água para países em desenvolvimento.

 

abc: O custo, atualmente, é um dos grandes empecilhos para que muitas dessas ideias não ganhem mais espaço no mercado, ou que não sejam viabilizadas comercialmente. Somente uma mudança de valores em relação à percepção de lucro, de comunidade, de prioridades colocará o “trem” da sustentabilidade em movimento?

DR: Custo sempre foi um empecilho, para produto sustentável ou não. Com certeza, e você tem toda razão, precisamos mudar e rever muitos valores e conceitos, mas para que os produtos sustentáveis “decolem” não podemos nos basear “apenas” numa mudança de valores, precisamos também da ajuda do governo para incentivar, facilitar e legislar em favor de empreendedores com esta visão. Nós designers também podemos e devemos fazer muito, primeiro precisamos nos informar mais sobre o tema, incentivar o desenvolvimento de projetos sustentáveis dentro das universidades e formar novos designers com estes valores. Desta forma, num futuro que espero estar bem próximo, não precisaremos falar em “design para a sustentabilidade” ou mesmo ecodesign, falaremos simplesmente “design”, no qual já estará embutido todo um pensamento mais saudável e sustentável.

Dreamball – o Umpluged Design Studio reutilizou sobras de embalagem para criar este brinquedo acessível para crianças desprivilegiadas, que normalmente usam a imaginação para criar os seus brinquedos.

Dreamball – o Umpluged Design Studio reutilizou sobras de embalagem para criar este brinquedo acessível para crianças desprivilegiadas, que normalmente usam a imaginação para criar os seus brinquedos.

 

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