"O ovo é um design perfeito, mesmo que feito com o ..."

Ronald Shakespear: "O ovo é um design perfeito, mesmo que feito com o ..."

abcDesign: Como você vê a evolução do escritório Diseño Shakespear?

Ronald Shakespear: O design mudou muito nos últimos 20 anos, muito mais que nos quinhentos anos anteriores. Vivemos em uma era em que a engenharia da simulação faz trotar dinossauros nos jardins de audiências fascinadas. O mundo mudou, as pessoas mudaram e o design também.

O nosso escritório, Diseño Shakespear, nasceu faz quase 50 anos e hoje é dirigido por Lorenzo Juan e Ronald. Segue sendo uma empresa familiar e design artesanal dedicada ao branding, à estratégia marcaria e aos sistemas de sinalização urbana e edílica. É nosso modo de ver o ofício.

Lorenzo trabalhou, nos anos 90, no Pentragram Londres, junto a Alan Fletcher. Quando voltou, reformulou o Estúdio. Juan desenvolveu, desde que tem 12 anos, projetos de alta complexidade. Hoje, Lorenzo e Juan são o leme e o motor do barco.

abcDesign: Em 50 anos de design, qual a lição mais importante que você aprendeu?

RS: Mais além das nossas intervenções urbanas (a sinalização da rede de Subterrâneos de Buenos Aires, os Hospitais Municipais, o Zôo Teimakén, o Trem da Costa, ou a sinalização da cidade de Buenos Aires), Diseño Shakespear criou mais de mil marcar na Argentina e região.

Creio que nossa aprendizagem maior tenha sido sobra a interação com as disciplinas relacionadas, como a semiótica, a arquitetura, a lingüística, entre outras. O design é um sucesso completo e resultado imprescindível de outros saberes e conhecimentos. Estabelecer conexões ajuda a ver e compreender. Sinto-me cômodo com as conexões. Minhas palestras e meus livros falam disso: as conexões. A antropologia e a história, o saber popular. O design não é uma ilha, é um mar.

Há 50 anos o design não estava instalado na sociedade dos meus pais. Foi um precesso lento e cheio de dificuldades. No aspecto pessoal, devo dizer que foi meu pai quem me induziu à disciplina. Foram bons tempos de luta, alegrias e tristezas, mas foram bons tempos. No fim, como muitos outros puderam dizer: “o design não é necessário, é inevitável”.

abcDesign: Que leituras te ajudaram e ajudam na sua formação de designer?

RS: O principal objetivo de um designer é decifrar os códigos da audiência. Para isso é necessário uma “grande orelha” para escutar as pessoas. Elas nos falam sobre seus anseios, suas esperanças, seus sonhos.

O hábito da leitura é fundamental. Isto tem a ver, não somente com a construção cultural do indivíduo, mas sim, com a expressão verbal, a capacidade do pensamento abstrato e a riqueza do idioma.

Em minha vida, tive dois privilégios. Ter encontrado uma biblioteca aos 13 anos e trabalhar com meus filhos nos projetos cotidianos.

O livro de Josef Muller Brockmann “The graphic artist and his design problems” (O artista gráfico e seus problemas de design) – uma bíblia – e o livro “The art of lookign sideways”, de Alan Fletcher (A arte de olhar lateralmente) – outra bíblia – me abriram os neurônios.

Também, não posso deixar de mencioar – George Nelson, Alice nos País das Maravilhas, de Lewis Carrol, os livros de Pentagram, Massimo Vignelli, A Estratégia da Ilusão, de Umberto Eco, Conversações com Felliini, de Grazzini, os livros de Jorge Frescara, Milton Glaser, enfim, uma lista interminável!

abcDesign: Conte um pouco como surgiu seu interesse pelo design. Começou quando você era jovem? O que te chamava atenção para essa profissão?

RS: Sempre me recordo a frase de Gui Bonsiepe : “Não somo ignorantes p por que não sabemos. Somos ignorantes porque não sabemos que não sabemos. Detectar o problema é essencial ao design. Essa é a missão. Muitos programas de estudo dependem do computador, e isso reduz consideravelmente o tempo dedicado ao pensamento emocional.

O papel que joga a luz em Rembrant, a montagem em Orson Weller, a linguagem em Garcia Márquez ou o som de Mozart, são infinitamente mais importantes que o domínio de um Macintosh.

Eu me formei principalmente no cinema, e, durante muito tempo, pensei que esse era o meu destino. Tive temporadas de três filmes diários. Matiné, tarde e noite. Bergaman, Truffaut, Eisentein, Pudovkin, René Clair, os clássicos. A Joana D´Arc, de Theodore Dreyer, o Cidadão Kane, Fitzcarraldo e Agurrie, a Ira dos Deuses, ambos de Werner Herzog. Hitchcock, Duvivier e Bergman outra vez. O chacal de NaguelToro, Blade Runner, o Anthony Hopkins de O fim dos Dias, Rendir, Godard, Woody Allen, em a Rosa Púrpura do Cairo, tudo de Francis Ford Coppola e mais… O cinema é puro design.

abcDesign: Em seu livro e em seus artigos, você comenta muito a função do designer em produzir respostas. Em sua opinião, qual o melhor caminho para se encontrar a melhor resposta?

RS: Jorge Frascara disse: “a missão do design não é comunicar, é produzir respostas”. Na minha visão pessoa, a estética cumpre um papel secundário. Nosso trabalho não é só resolver problemas, e sim, detecta-los. Em minha visão, ou aprendemos a escutar as pessoas, ou não lhe daremos respostas. Se o design não serve para que as pessoas vivam melhor, então, não serve para nada.

abcDesign: Você comenta que o trabalho do designer é transformar dados em informações, fazê-las significantes para a audiência. Mas como trabalhar em um mundo onde há um número excessivo de informações?

RS: Nos 500 anos desde que Guttemberg inventou a imprensa, 30 milhões de livros foram impressos. Outros 30 milhões foram impressos nos últimos cinco anos. Alguns sugerem que sabemos mais e mais sobre menos e menos, e que logo saberemos muito sobre nada.

A mente trabalha com idéias, e não com informação, de tal maneira que adquirir conhecimento não tem sentido se não aprendemos a usá-lo. Por exemplo, o dicionário contém todas as palavras do mundo, mas nenhuma disse para o poeta o que ele tinha que escrever.

De cima para baixo: livro de Shakespear sobre seus trabalhos de sinalização, Señal de Diseño; placas de Táxi encontradas em toda a Argentina, Placa do Zoo Temaikén e sinalização dos "subtes"

De cima para baixo: livro de Shakespear sobre seus trabalhos de sinalização, Señal de Diseño; placas de Táxi encontradas em toda a Argentina, Placa do Zoo Temaikén e sinalização dos "subtes"

abcDesign: A frase: A forma como os estudantes de design são educados é a metade do problema, a forma como os administradores são educados é a outra metade está na abertura de um dos capítulos de Señal de Diseño. Onde está o erro da formação do estudante, e onde está o erro da educação dos administradores?

RS: Recentemente tenho dado palestras e workshops nos Estados Unidos e Canadá. Em um deles, na cidade de Nova York, com Massimo Vignelli e Lance Wyman falamos sobre a educação do design. O principal problema – que resiste – é que muitos alunos crêem ainda que o design é uma forma de auto-espressão.

Os administradores foram educados – em geral – sem usar o hemisfério direito do cérebro. Isto os transforma em disléxicos visuais. O encontro de essas duas culturas – designer e administradores – está sempre na borda do abismo.

Os designer devem aprender a estabelecer um relacionamento adequado com seu cliente, e além do mais, é imprescindível que possam transmitir o aspecto visual do projeto em termos verbais.

abcDesign: Como você vê o design na América Latina, e em especial no Brasil?

RS: O Brasil tem uma história muito rica na comunicação visual, desde Aloísio Magalhães, Joaquim Redig, Ronald Kapaz, Felipe Taborda, Rico Lins, Bruno Porto, Gad Design, Ruth Klotzel e tantos outros. O Brasil canta ao design.

abcDesign: Pela diferença da língua, o Brasil e os outros países da América do Sul não possuem uma grande integração cultural. O que você pensa disso?

RS: As históricas contingências sócio-econômicas dos nossos respectivos países tem sido um obstáculo de dimensões gigantes. Também é certo que há interesses estrangeiros que trabalham para que essa integração cultural não prospere. De todos os modos, os povos tendem a laços frutíferos que passam sobre os burocráticos.

abcDesign: Quais os designers mais significativos para você?

RS: Milton Glaser, Alan Fletcher, Armin Hoffman, Josef Muller, Brockmann Lance Wyman. Cada um deles – além de seu talento e obras – foi conseqüente com os tempos em que viveram. São testemunhos da história do design.

abcDesign: Qual a sua maior fonte de inspiração?

RS: O chamado do meu cliente é toda a inspiração que necessito. O melhor prêmio para nós é quando as pessoas usam os sinais e eles as ajudam chegar a seu destino. Os sinais são promessas que devem ser cumpridas. Esse é o contrato social.

abcDesign: Em seus textos encontramos muitas frases de pessoas famosas e que ilustram e corroboram a maneira como você pensa. Você poderia finalizar a entrevista com a sua frase favorita?

“El huevo es un diseño perfecto. Aunque está hecho con el culo” (O ovo é design perfeito. Mesmo que tenha sido feito com o…). Bruno Munari.

Compartilhe: