Cesar Pieri é um designer automotivo brasileiro que desde o início da sua carreira buscou trabalhar e se aprofundar no mundo automobilístico. Sua trajetória é composta por trabalhos desenvolvidos nas mais renomadas montadoras do mundo: Fiat, Ducato e, mais recentemente Jaguar.

Na Jaguar o designer desenvolveu o Jaguar F-Type Project (2013), uma releitura do D-Type, um clássico da montadora britânica. O modelo teve apenas 250 unidades fabricadas e marcou a história da montadora por ser o modelo mais potente e veloz já produzido pela Jaguar.

cesar2

Foto: Divulgação

No dia 25 de agosto Pieri esteve em Curitiba para dar uma palestra e nós tivemos a oportunidade de bater um papo com ele. Quem conduziu a entrevista foi a dupla Ericson Straub e Marcelo Castilho, dois designers com um carinho especial pelo mundo automobilístico – que inclusive escreveram junto o abc do rendering automotivo –  então senta que lá vem muuuito papo:

A importância da história para uma marca

[ERICSON] As marcas hoje de forma geral e, principalmente, no segmento automotivo, estão buscando o resgate no passado, muitas vezes até na questão do branding, seja no produto desenhado e ou mesmo nas questões dos símbolos, elas estão olhando para o passado e tentando trazer isso para as marcas. Na Jaguar também tem esse olhar que o passado tenta trazer ou é um olhar mais para frente?

[PIERI] De modo geral, não só na Jaguar, toda empresa que tenha uma tradição, que desenvolveu produtos, que teve uma linguagem de design passado e que teve sucesso de alguma forma, ela tem um valor histórico que é muito importante. Tudo que foi desenvolvido durante aqueles anos, os passos tecnológicos, as coisas que aconteceram, são coisas relevantes para um grupo de consumidores, que são consumidores fiéis e que acreditam – e acho que todo mundo acredita – que são essas coisas que formam o que a marca é, assim como as nossas experiências de tudo que vivemos, das coisas mais simples e as coisas mais malucas, ou mais importantes, elas moldam e fazem de nós o que nós somos hoje. Eu tenho, por exemplo, coisas que eu vivi no passado que hoje são importantíssimas e que na época eu não entendia. Então para uma marca, seja ela do que for, o heritage é muito importante, porém quando você desenha para uma marca, você tem que ter aquilo ali, você tem que saber de tudo que passou, quais são os elementos de design que são importantes para aquela marca, que caracterizam aquele tipo de produto, a linguagem de design, a linguagem de superfície, a linguagem gráfica que foi utilizada, a evolução de tudo isso. Porém você tem que desenhar com consciência, mas sem olhar muito para trás. Você não pode se apegar tanto ao passado porque se você se apegar ao passado você não consegue ver o futuro. Você tem que ter uma consciência daquilo – e todas as marcas têm na verdade – e buscar, cada vez mais, olhar para frente. E eu acredito que essa conscientização que as marcas hoje têm e os produtos em geral, não só automotivos, é um resgate, é a valorização exatamente dessas coisas, que muita gente acredita que o passado não tem nenhum valor, quando na verdade, você só é o que você é hoje, porque você tem uma experiência de tantos anos que te formam como aquilo.

O papel do design para o todo

[MARCELO] Quero pegar um gancho do heritage. Na sua jornada, você teve formação em arquitetura, depois em design, daí eu vi que nos seus trabalhos você se envolveu com design gráfico, enfim. Você transitou aí por várias áreas criativas e esse seu heritage – como muitos da área criativa – ele é muito baseado no seu “eu-criador”, no seu poder como criador, e eu queria ouvir um pouco de você, como você vê hoje, no seu ambiente de trabalho, a questão de você, como “eu-criador”, como você lida com essa dualidade de expressar o seu “eu-criador” e a necessidade de trabalhar de forma colaborativa?

[ERICSON] Eu posso até acrescentar uma coisa, a experiência que você teve em países diferentes, porque as visões da Itália, da Inglaterra… são diferentes.

[PIERI] Eu acho assim, não existe trabalho de criação – a não ser que você seja um artista que você faça a sua coisa – que não seja em grupo. Então todo processo de criação; de um produto ou de uma revista – você vai ter que diagramar ela, você vai ter que prestar atenção no seu fornecedor, qual material que você vai usar na capa, como você vai fazer a cor especial, como você vai fazer a lombada, como você vai fazer uma série de coisa -. Ou seja, você tá fazendo um projeto, onde existe um grupo de pessoas responsáveis, que você vai ter que delegar essas informações, essas tarefas para eles, você tem que se rodear de pessoas que façam isso melhor do que você. Na verdade o trabalho do designer eu acho – do artista é uma coisa, do artista é ele por si só – do designer é o que trabalha numa equipe e o trabalho dele é exatamente fazer o seu melhor para fazer com que o todo funcione de uma forma muito especial.

Então, por exemplo, o meu trabalho como designer manager, é exatamente tentar entender o que você tem de melhor, te dar todas as ferramentas possíveis para potencializar o que você tem, para que você faça isso com paixão. Que você pegue todas essas experiências que você viveu durante anos, em momentos diferentes, em empresas diferentes, em países diferentes, no caso, e cada momento, por exemplo, eu trabalhei com projeto gráfico, trabalhei desenhando planta de arquitetura no Banespa, em 1996, eu toquei em um grupo de música ao vivo durante 10 anos. Todas essas experiências fazem com que você entenda, na verdade, a importância de quem está do seu lado, sem isso você não vai para lugar nenhum, ninguém ganha sozinho.

Você tem que trabalhar em equipe de uma forma muito multidisciplinar e, na verdade, aí sim, cada um que viveu, por exemplo, como eu fiz essas coisas diferente que eu citei agora pouco, eu nunca entendi, por exemplo, quando eu desenhava em AutoCad, lá em 1996, para que que aquilo ia me servir? Eu sempre quis ser desenhista de carro, só que eu não consegui naquele momento, estava fazendo a faculdade de arquitetura, que eu queria fazer, depois eu fui trabalhar com design gráfico, que não era muito bem o que eu queria fazer, mas eu continuei fazendo, e eu aprendi a mexer no Photoshop, naquele momento, era só eu aprender a mexer no Photoshop ou no Ilustrator para poder diagramar alguma coisa, para fazer alguma, para criar uma arte… Porém, eu não entendia o valor de tudo aquilo, eu coordenei time nos Estados Unidos, coordenei equipes aqui, ali, fiz isso, fiz aquilo… E quando eu consegui entrar no mundo do automóvel, ai sim, que eu vi que todas aquelas experiências tinham seu papel especial para que eu chegasse até onde eu cheguei.

Quando eu cheguei como designer de automóveis eu já tinha uma bagagem que fez com que eu virasse manager, ou chegasse onde eu queria chegar de um modo muito mais veloz, diferente de quem sai da faculdade, faz um e estágio, entra em uma empresa e ali fica durante anos, as vezes sem ter uma visão da empresa vizinha. Você fica 20 anos naquela empresa e nunca viu o que o cara do lado está fazendo, então você acaba ficando com uma cabeça bitolada em uma empresa criando aquilo e eu acho que a multidisciplinaridade, trabalhar com diversos fatores e ter uma bagagem completamente diferente daquilo que você está fazendo, só acrescenta no seu modo de abrir a cabeça e pensar diferente.

jaguar

Jaguar F-Type Project Foto: Divulgação

 

O Brasil no cenário automobilístico

[ERICSON] Isso é incomum no segmento automotivo, porque se percebe muito, pelo menos eu percebo, que quem gosta do segmento, quer aquilo desde o começo, já entra na faculdade de produto, talvez engenharia automotiva e essa trajetória é incomum, eu acho.

[PIERI] Não acho que seja incomum para quem nasceu no Brasil. Eu acho, por exemplo, principalmente na Europa, o cara faz uma faculdade na Itália, na Alemanha, Inglaterra, ele consegue fazer três, quatro estágios durante a faculdade no mundo automotivo já. Ou seja, ele já entra com uma bagagem muito mais completa no mundo automotivo, porque ele está ali do lado da montadora. Ele está na Inglaterra, tem 3, 4, 5, 10 montadoras que ele pode trabalhar. O cara que nasce fora dessa realidade, ele tem que fazer uma trajetória completamente diferente se ele chegar, pode até conseguir trabalhar em uma montadora aqui, outra montadora ali, mas chegar lá, na verdade onde realmente desenha, realmente definir as proporções daquele veículo, ali sentado numa mesa redonda, é diferente. Eu fiz o caminho que eu consegui pra chegar lá, o possível.

Sobre o futuro do carro

[MARCELO] Sobre caminhos, a gente sabe, por exemplo, que o estudante sulamericano muitas vezes faz muito sacrifício para estudar fora, no meu caso, por exemplo, eu fui estudar em Coventry. Naquela época – na verdade isso é um gancho pra outro assunto que eu quero trazer -. Primeiro, o eforço que você faz para entrar nesse meio, depois o sonho de ser designer automotivo. E eu lembro que na época eu fui no royal college, em junho tem um exibition, isso foi em 1995/1996. Eu fui de novo esse ano no exibition do royal college e está muito diferente. Antes o design automotivo era a estrela do royal college e hoje você vê que é uma multiplicidade das expressões de design, mas o que me chamou a atenção é que o interaction design estava fervilhando. O design automotivo também apareceu, com expressões tradicionais ali, mas eu não senti aquele fervo que tinha na década de 1990 quando eu fui. Então eu queria te perguntar assim, você sente na prática o crescimento do design de interação, o design digital e como isso está impactando no design automotivo hoje?

[PIERI]Eu acho que nós nascemos na época analógica, então nosso mundo era analógico, era botão, era diferente. Hoje em dia você está em uma situação onde você dá um comando de voz ou dá um comando de gestos ou você realmente toca uma tela e tem um feedback realmente de tato.

Porém quanto mais tempo passar, mais o carro vai deixar de ser um pedaço de metal e mais vai virar um meio de comunicação com você, mais ele vai te avisar que ele está precisando de uma revisão: “olha, dá uma olhada no meu sistema de freio porque eu percebi que ele, durante uma frenagem, deu um problema”. Hoje, com os carros que nós temos, eu posso daqui ligar meu carro na Inglaterra, definir a temperatura da cabine, eu consigo fazer com que ele abra os vidros, eu consigo fazer com que ele faça qualquer coisa. Ou seja, a conectividade que nós temos com um produto até então inanimado, passa a ser, na verdade, uma coisa em que o carro aprender, o produto aprende com você e ele começa a reagir, ele sabe que de alguma forma, um dispositivo que eu posso carregar comigo, uma chave diferenciada que é a minha ou a da minha mulher, que eu prefiro o banco na posição certa, que eu prefiro ele numa temperatura “X”, que o volante tem que estar na temperatura e na posição que eu gosto, que o painel digital que eu gosto é aquele, que eu gosto de um tipo de feedback diferente do que ela gosta e cada vez mais eles vão atender as suas demandas e necessidades. Então eu acho por isso que hoje, cada vez mais para geração, para os millennials, que nasceram no mundo digital, o mundo do user interface acaba virando mais importante do que o próprio carro. O carro vai te levar de “a” para “b”.

O sentido do carro para as novas gerações

[MARCELO] Você tem sentido isso nos jovens designers?

[PIERI] No mundo todo, os jovens, por uma falta de dinheiro ou por uma falta de interesse, ou por um conjunto de coisas diversas, eles têm menos interesse pelo automóvel, nos grandes centros, onde o transporte público funciona, onde o ônibus chega no horário exato e tem uma periodicidade exata, você não precisa de um veículo. Cada vez mais o veículo começa a ser uma coisa mais elitizada, você acaba, por exemplo, se você vai para o seu trabalho num carro de 7 lugares sozinho, não faz senso algum. E para essa geração faz menos sentido ainda. Então, na verdade, o mundo do automóvel vai sofrer uma revolução tremenda com a direção autônoma, com eletrificação e com os meios de conectividade que possivelmente o mundo do design e da engenharia vão desenvolver.

O carro no planejamento urbano

[ERICSON] Como você enxerga que o carro e o transporte público vão impactar o planejamento futuro das cidades?

[PIERI] Pensa em uma cidade europeia que existe há 300 anos antes de Cristo, você tem ruas estreitas, você tem centros históricos estreitos, você tem ruas que não foram planejadas pelo mundo do atumóvel, você vai em Turim, por exemplo, as ruas e o centro histórico são apertadinhos, você não vai demolir tudo aquilo para refazer a malha urbana e fazer uma reformulação completa da urbanização para que as cidades de adaptem aos meios de transporte.

Na verdade nós vamos partir para um momento onde vai se falar muito mais em mobilidade urbana e não de automóvel, do que realmente uma transformação geral nas cidades, é claro, as cidades do futuro, que estão sendo desenvolvidas – e Curitiba é um ótimo exemplo disso – de um sistema viário que funciona melhor do que nas outras cidades, um sistema viário que é pensado, desenhado, tem um porquê de ser, as cidades de 2 mil anos atrás, por exemplo, na Inglaterra, na Europa, são de trocentos anos atrás, jamais se pensaria nisso.

[ERICSON] |Hoje mesmo eu ouvi uma notícia no rádio, que por dia está diminuindo 73 mil passageiros no transporte público de Curitiba.

[PIERI] Cada vez fica mais difícil, em Londres você tem o Congestion Charge, fica mais difícil de chegar no centro urbano com seu carro, ele vai te proibir de chegar, Milão já tem o ZLT (Zona de Tráfego Limitado). Ou seja, em alguns momentos você não pode entrar com seu carro, ou seja, ou você parte para um meio de transporte alternativo, desde que o transporte público funcione, desde que o poder público funcione e invista dinheiro no transporte, porque o poder público, na verdade, só pode te proibir de entrar de carro se ele te oferecer uma solução alternativa cabível, não é? Ou seja, é um trabalho conjunto entre o desenvolvimento dos países, cada um com o seu tipo de desenvolvimento, com suas atividades e o mundo automotivo, o mundo da mobilidade urbana, o mundo do transporte.

E o mercado de luxo?

[MARCELO] Eu tenho uma curiosidade, você trabalha em um mercado de luxo, ali na Jaguar, e eu não sei quanto vocês refletem sobre o futuro do luxo, olhando essas questões novas que estão surgindo da economia digital, da sustentabilidade, do hedonismo, enfim, eu queria ouvir um pouco de você se vocês tem discutindo a questão do luxo daqui a 10, 15, 20 anos.

[PIERI] Independentemente da Jaguar, de um modo geral, o luxo é uma coisa muito relativa, o luxo para nós é uma coisa, para uma pessoa que vive no Oriente Médio é outra, para uma pessoa que vive nos Estados Unidos é outra completamente diferente, então a percepção de luxo é relativa. Você como um produtor do que quer que seja, de um produto manufaturado de luxo, você tem que entender qual é o seu mercado e até onde você pode ir em relação ao budget. Hoje em dias, as empresas produzem produtos específicos para a China, produtos que tenham um nível de acabamento específico para o mercado norte-americano ou para o mercado de Dubai, por exemplo, das Arábias ali, sei lá. Então, existe um luxo, que é o luxo exagerado, com aerofólio gigante no carro, a ostentação, o dourado, fazer um carro de veludo, o que para mim não é o luxo, mas algumas pessoas percem isso como luxo; mandar trazer a “pele do elefante branco do sudeste do pântano da Malásia” para cobrir o banco do teu carro, é luxo, “eu sou o único do planeta terra que tem”, isso é o luxo dele.

A minha percepção de luxo é viver em um lugar tranquilo, calmo, onde eu chego em um lugar em cinco minutos. Eu, por exemplo, não sou tão urbano, eu não gosto de centros urbanos, aquela loucura que você leva uma hora para fazer dois quilômetros, eu prefiro morar no countyside inglês, por exemplo, porque eu sei que ali eu tenho minha paz de espírito, eu acordo com o passarinho cantando, esse é o meu luxo. Os poucos momentos que eu posso viver com a minha família e se eu perder esses poucos momentos com uma hora de tráfego de trânsito, para mim acabou o dia. Então eu prefiro trabalhar de um outra forma para que eu consiga chegar lá muito mais rápido, por que isso é um luxo para mim, são os momentos de harmonia que eu vivo com eles. Para outra pessoa pode ser correr, fazer academia, ir nadar, ou realmente o luxo ostentativo, então é muito difícil para nós ou para qualquer empresa chegar nesse percepção de luxo, pois é muito relativo.

 

pieri

A palestra ocorreu no dia 25 de agosto e foi uma realização do Centro Brasil Design e Parque Tecnológico Itaipu com apoio da Universidade Positivo, Prefeitura Municipal de Curitiba, Unesco e Prodesign>pr.

Compartilhe:
  • 16
    Shares