Na edição 27, conversamos com o designer Bruno Porto sobre o seu trabalho como professor na Raffles Design Institute, em Xangai. Agora você confere algumas perguntas que não entraram na revista e que contam um pouco mais da preparação e adaptação do Porto na China e sobre algumas (das muitas) diferenças culturais. Surpreenda-se!

abcDesign: Quando você recebeu o convite de Itamar Medeiros, há 2 anos e meio, o que o levou a aceitar a mudança tão radical para a China, como professor, como designer e como pessoa?

Bruno Porto em frente a um tempo da Cidade Proibida

Bruno Porto em frente a um tempo da Cidade Proibida

Bruno Porto: O convite chegou num momento que considerei de fechamento de ciclos da minha vida profissional: iria completar 10 anos como professor na UniverCidade (RJ) e estava deixando o cargo de diretor da ADG Brasil. Ampliar essas duas áreas de atuação no país mais curioso, desconhecido, e ao mesmo tempo, presente – em seu momento mais intenso -, era uma proposta Dom Corleone: você não podia recusar! Mas encarei basicamente pela aventura: sou encantado pela China desde os oito anos quando li o álbum em quadrinhos de Tintim O Lotus Azul!

Como já me disse meu camarada Luli Radfahrer, nós somos de uma geração que aprendeu a gostar de viajar lendo os quadrinhos de Hergé e o Tio Patinhas de Carl Barks! Obviamente fiquei espantado com o convite, mas fui facilmente convencido quando recebi no dia seguinte um telefonema do meu amigo de longa data Billy Bacon dizendo que também havia sido contatado pelo Itamar. Topamos o desafio juntos. Billy ficou aqui um ano e meio.

abc – Como você se preparou para a experiência de imergir em um país tão diferente?

BP: Em meio a todos os trâmites de finalizar trabalhos, vender carro, encaixotar coisas, etc., consegui fazer seis aulas de mandarim com a professora Yuan Aiping no Centro Cultural China-Brasil, que além de apresentar os rudimentos de pronúncia e a estrutura do idioma me serviram como uma introdução cultural aos costumes chineses. Uma das aulas, por exemplo, foi um jantar em um típico restaurante chinês para ilustrar os hábitos à mesa.

Exemplos de design duvidoso não faltam pela China...

Exemplos de design duvidoso não faltam pela China...

Ela também ajudou muito ao explicar o relacionamento aluno-professor, que ocorre de forma diferente do Brasil, muito mais formal. Além disso, devorei dois livros que me salvaram a vida explicando “o que é a China” hoje: o espetacular ‘China – O Renascimento do Império’ da Claudia Trevisan (Editora Planeta) e o ‘China S.A.’ do Ted Fischman (Editora Record) que é bem menos chato do que ameaçava, sendo o livro de economia que é. Hoje também existem ‘Um brasileiro na China’ do Gilberto Scofield (Ediouro) e ‘Laowai’ da Sônia Bridi (Editoras Letras Brasileiras), que abordam mais o dia-a-dia em Pequim, onde ambos foram correspondentes.

abc – Hoje, você já se considera adaptado? Poderia relembrar alguns dos momentos mais complicados/engraçados/estranhos durante esse tempo?

Pirataria também tem sobrando por lá... Não, não é o Starbucks.

Pirataria também tem sobrando por lá... Não, não é o Starbucks.

BP: Leva um tempo até assimilar que a individualidade na China não é páreo para o coletivo. No início você sente seu espaço invadido, as pessoas olham dentro do seu carrinho de supermercado para ver o que você está comprando, não se pede “com licença”, filas são ignoradas, muitos banheiros são bem devassados… e não há o menor problema nisso. É cultural. Resultado do fato de sempre haver, e de sempre ter havido, muita gente.

Não vou nem entrar na questão do idioma, que é complexo, mas mesmo a linguagem corporal é diferente. Fazer o gesto, que eu achava internacional, de “assinar no ar” para pedir a conta resulta na garçonete te trazer uma caneta! O que nós compreendemos como sutileza, ou ironia, se perde diante de um raciocínio tão direto, ou sem jogo de cintura. Um amigo brasileiro daqui me contou de uma chinesa lhe havia dito que achava a canção ‘Garota de Ipanema’ muito triste. Segundo ela, que só conhecia a versão em inglês, era a história de uma moça cega! “When she passes I smile but she doesn’t see” e “But each day when she walks to the sea, she looks straight ahead not at me” foram interpretadas ao pé da letra: “ela não vê” significa que ela é cega!

abc – A censura ainda é muito forte na China. Na sua percepção, como isso tem influenciado o desenvolvimento dos jovens criativos? Eles conseguem burlar meios de expressão, ou acabam mesmo perdendo muito do que acontece no mundo em termos de cultura?

Mas tem muita coisa boa também, como essa edição chinesa da revista Milk, em comemoração aos 60 anos da Adidas, que trazia um baralho no meio da revista. As cartas tinham os principais modelos da marca.

Mas tem muita coisa boa também, como essa edição chinesa da revista Milk, em comemoração aos 60 anos da Adidas, que trazia um baralho no meio da revista. As cartas tinham os principais modelos da marca.

BP – A maioria não burla, pois não sabe nem que há algo além do que já vive – e olha que é muito para se ver aqui, um bilhão e meio de assuntos! É uma situação meio Matrix e às vezes você se pega tentando fazer os caras tomarem a pílula vermelha. E em muitos casos nem é uma questão de censura: boa parte dos jovens não conhece o YouTube pois aqui há um similar chinês, chamado YouKu.com (ééé, vai lá ver!) que carrega muito mais rápido e que está todo em chinês. O mesmo para o Facebook, o Flickr, etc. Talvez a grande encrenca, pelo menos no que se refere à cultura (já política é outra história…), nem seja tanto a censura – encontro boas revistas de design de Hong Kong e Taiwan e mesmo livros importados sem muita dificuldade – mas a distância entre os idiomas e a inércia em pesquisar. E, assim como no Brasil, fazer com que os estudantes universitários desenvolvam o hábito de leitura e de comprar livros. Se isso já é difícil aí, imagina numa cultura em que o desapego material e hábito da cópia são tradicionalmente exercidos?

A entrevista completa você lê na revista abcDesign edição 27

Fotos: Bruno Porto

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