Quando viajei de avião pela primeira vez, eu esperava ver, pela janela, onde é que acaba uma cidade e onde que começa outra, diferenciando-as por cores e contornos, como naqueles mapas da escola. Desapontado com a invisibilidade das fronteiras, comecei a imaginar o que aconteceria se todos os muros e paredes fossem também invisíveis. Ninguém mais poderia se esconder, qualquer lugar estaria “aberto” ao olhar alheio. Não sabia se isso era algo bom ou ruim. Desconhecia o que as pessoas fazem entre quatro paredes. Mas eu desconfiava que, sem as paredes nos dividindo, tornarnos- íamos aquilo que eu via pela janela do avião: uma grande paisagem indiferenciada.

Alguns anos depois, descobri que o último pedaço da Terra, não pertencente a um Estado-nação, foi apropriado em 1899. Desde então, teoricamente nenhum centímetro quadrado deste planeta esteve livre de impostos. Logo eu entendi que quando alguém diz que vivemos num mundo “sem fronteiras” é porque todas as fronteiras já foram demarcadas. As paredes não desapareceram; pelo contrário, acreditamos mais em sua existência na medida em que elas escaparam de nossa vista.

A princípio, a ideia de “parede” – seja na forma de cortina, de biombo ou de linha imaginária – indica ao mesmo tempo uma cisão e uma sobreposição de estereótipos que nos orientam socialmente. Do mesmo modo que há uma parede separando, por exemplo, o banheiro masculino do banheiro feminino, há um estereótipo segundo o qual motoristas mulheres são piores do que motoristas homens. Obviamente, esse estereótipo não é acurado. Tanto é que muitos seguros de automóvel são mais caros para homens, que costumam ser, na verdade, bem menos cuidadosos que as mulheres na direção. O que ocorre é que é difícil mudar uma parede de lugar.

Com efeito, uma cidade não passa de um conglomerado de paredes aparentemente imóvel, mas cujo espaço é lentamente remanejado para a construção de novas paredes. Sem elas, cada lugar e cada indivíduo desapareceriam feito grãos de pó sem referencial atenuante em meio à paisagem. Todavia, se por um lado não faz sentido dizer que as paredes deformam um cenário preexistente ou “natural”, pois é por meio delas que conseguimos reconhecer um “cenário” e a nós mesmos dentro dele, por outro, não há mais para onde ir quando as paredes em si tornam-se invisíveis.

É cada vez mais recorrente, por exemplo, a sensação de que “todo lugar é igual ao outro”. Desde shoppings e aeroportos até estradas e favelas. Parece que quanto maior é a mobilidade urbana, a circulação de imagens e as conexões em rede, mais parecidas se tornam as paredes e mais indistinguíveis se tornam os lugares por elas definidos. Pelo menos é a experiência que, particularmente, tenho vivenciado morando em São Paulo: não importa o quanto eu interaja com pessoas novas, ou o quanto eu me locomova a lugares diferentes, permaneço sentado naquele avião, diante de uma mesma paisagem sem contornos.

Claro que se dar conta disso faz toda a diferença. Mais precisamente, quero crer numa possível estratégia que poderia ser definida como “design” no cerne das grandes metrópoles contemporâneas: a conduta de transformar paredes em interfaces. A diferença é demasiado sutil: aquilo que até então servia para limitar e fixar significados, torna-se justamente o lugar por onde os significados passam, movimentam-se e se transformam. Em outras palavras, somos nós – e não as paredes – que nos tornamos invisíveis, pois estamos o tempo todo partindo, evadindo e retornando no intuito não de destruir as paredes, mas de rearticular aquilo que acontece entre elas. Invisibilidade, desaparecimento, fuga, nomadismo ou desterritorialização (noções discutidas à exaustão por Michel Foucault, Jean Baudrillard e Gilles Deleuze) não se opõem às paredes, mas delas se desdobram. Ao tornar visível uma configuração/aparência previamente abstrata, o design das paredes torna-se nômade, invisível, mero signo de uma ideia provisória. Se levantar paredes era um modo de lidarmos com situações desorientadoras, integrando-as, por meio da ação projetual, em nosso universo de significado, construir interfaces implicaria, ao contrário, reincorporar a desorientação inicial sob a forma de provocação. Um desafio para a busca de novos significados: desenhar na janela as linhas que não existem na paisagem.

Ao invés de mera demarcação territorial, o design poderia agenciar tais desvios e atalhos que não são, contudo, menos precisos ou efetivos na medida em que chegam a dirigir processos irreversíveis. Não se trata mais de um projeto com princípio e um fim bem definidos. Tratase da linha do meio, aquela linha de tensão que só pode ser apreendida enquanto ela é traçada e recomeçada pelas margens. Acredito, ou ao menos gostaria de propor, que as interfaces não são um tipo especial de design, mas que todo design é um tipo especial de interface; a saber, um “buraco” privilegiado para que o movimento de uma ideia aconteça de maneira invisível, sem que ninguém perceba de imediato. É quando dizemos que nada mudou – nenhuma parede saiu do lugar – e, no entanto, tudo mudou, só que de maneira irrastreável por se concentrar numa espontânea, ainda que breve, autoorganização epifânica: o retorno indistinguível de um passo adiante, uma conspiração secreta a ser silenciosamente recomeçada.

Arte por: Indianara Barros

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