Nos centros urbanos – muros, prédios, ruas e becos, por onde quer que nossos olhos percorram, elas estão lá. Maiúsculas e minúsculas; expressões, tags ou poesias. Elas dão vida a superfícies de concreto e voz àqueles que estão à margem. Nós, pertencentes a esses centros, passamos por elas de forma efêmera e fugaz, o tempo é sempre nosso pior inimigo; não andamos, corremos. Transitamos pela cidade com uma espécie de cabresto controlado pelo relógio, que inibe sensações e nos torna impermeáveis; não vemos nem ouvimos, ou pelo menos fingimos que não, é mais fácil. Mas elas resistem ao tempo, nos cercam e nos invadem, até que uma hora estamos frente a frente. O embate pode gerar contemplação ou repulsa. A questão é que a pixação configura as cidades com explosões de ideias, manifestações e inspirações e nós resistimos. Tire o seu cabresto, se permita, perceba.

  • Foto: Gustavo Jordaky

 

A utilização de paredes como estrutura para manifestações não é uma característica exclusiva da contemporaneidade, ela acompanha o desenvolvimento humano desde o Período Paleolítico, alternando, principalmente, o tipo de expressão e o material utilizado. Depois da descoberta do fogo, mas antes da criação do alfabeto, surgiu a primeira manifestação artística da humanidade, a Arte Rupestre. Feita nas paredes das cavernas, essa expressão artística é o único registro datado sobre o modo de vida pré-histórico.

Essa prática se estendeu à Antiguidade. Os xingamentos, propagandas políticas e poesias caligrafadas com o denominado “latim de rua” por toda a cidade de Pompeia foram eternizados com a erupção do vulcão Vesúvio no ano de 79, tornando-as visíveis até os dias de hoje. Já na Idade Média, os muros dos conventos eram o foco das manifestações nos espaços públicos. Na ascensão católica, os padres expunham suas ideologias nos muros de conventos rivais com o intuito de expressar suas ideias, criticar doutrinas contrárias às majoritárias ou, então, difamar governantes que não atendiam às suas reivindicações.

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Das sedutoras curvas do Rio de Janeiro aos angulosos retângulos de São Paulo, a pichação impregna nos centros urbanos como um grito cravejado que ecoa discursos políticos, sociais e poéticos. Essa prática acompanha a humanidade, resiste a reformas políticas e períodos artísticos e age como reflexo de um grupo, movimento, sociedade ou do próprio tempo.

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design: Amanda Camargo

 

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