por, Chico Homem de Melo

Um mal se alastra pelo mundo: os banners. Eles estão em toda parte, multiplicam-se em progressão geométrica, ocupam nosso caminho. Aliás, ocupam nosso caminho literalmente: eles costumam ser pendurados em porta-banners pernaltas que invadem sem cerimônia os espaços de circulação. Se, por um lado, os equipamentos de impressão em grandes formatos abriram um amplo leque de possibilidades de comunicação para o designer, por outro eles criaram paradoxos que dificultam a plena realização dessas possibilidades.

A disseminação do computador chegou cercada de paradoxos. Um deles é a fé quase cega nos poderes da informática. A crença generalizada é que tudo se resolve com um simples apertar de botões. O design ambiental nos fornece tristes exemplos de como certezas podem tornar-se pesadelos num piscar de olhos.

O ponto de partida desta conversa nem se discute: os equipamentos de plotagem em grandes formatos são efetivamente maravilhosos. Agora é possível produzir exemplares únicos de imagens de dimensões gigantescas com qualidade fotográfica. Em poucos anos, esses equipamentos transformaram a cena ambiental do planeta. A rapidez, a qualidade e o custo relativamente baixo de impressão tornaram viáveis intervenções visuais na escala do ambiente arquitetônico e do ambiente urbano que eram inimagináveis há duas décadas.

No entanto, há alguns pontos cegos nesse processo. As mencionadas rapidez e baixo custo fazem crer que tudo se resolve instantaneamente, e que o custo total do banner instalado é igual ao custo de impressão. Aí é que começam os paradoxos da informática. Ao contrário do que muitos acreditam, o projeto não fica pronto no momento em que se fecha o arquivo, nem o banner fica pronto no momento em que se termina a impressão. Daí para frente… bem, daí para a frente é só imprimir e pendurar, não? Na verdade, paira no ar essa idéia de que instalar o material impresso se resume a pendurá-lo no prego de uma parede ou num porta-banner.

Qual é o resultado desse procedimento automático ‘imprimir-pendurar’? As bordas dos banners enrolam, as superfícies embarrigam, as fixações entram em choque com a imagem, a implantação entra em choque com os demais elementos que compõem o ambiente. O produto final transforma-se num pálido retrato das intenções do designer.

A pergunta a ser introduzida nesse processo: qual é o suporte mais adequado para a fixação de cada plotagem, levando-se em conta o contexto específico em que ela será instalada? Para dar uma boa resposta, é imperativo rever as expectativas de rapidez e baixo custo. Esse é o ponto nevrálgico a ser enfrentado. Produzir e instalar esse ‘suporte adequado para cada plotagem’ exige soluções que saem do âmbito do automatismo e entram no âmbito do projeto. Em outras palavras, é necessário que o banner vire painel. Para que isso aconteça, o digital exige a complementação do artesanal.

Os suportes a serem projetados podem ter as mais variadas complexidades, em função de cada situação específica. Em casos mais simples, os cuidados podem se limitar à preparação adequada da superfície que vai receber o material impresso. São mais freqüentes os casos que exigem o projeto de suportes auto-portantes, os quais envolvem questões de estabilidade, resistência, mobilidade, transporte, montagem. No pólo extremo estão os casos que exigem a construção de estruturas metálicas capazes de sustentar lonas de centenas de metros quadrados, o que por sua vez exige uma avaliação minuciosa do próprio edifício onde serão apoiadas.

Alguém falou em automatismo, rapidez, baixo custo? O arquivo digital que gerou uma impressão de qualidade foi o pontapé inicial desse processo; mas depois dele precisa ser desenvolvido o projeto do suporte e precisam ser enfrentados os procedimentos artesanais necessários para sua produção. Se quisermos manter no produto final uma qualidade compatível com a que foi obtida na impressão, o automatismo desaparece, o prazo se dilata, o custo aumenta. Sai de cena o digital, entra o artesanal.

[Vale uma ressalva: quando se fala que o custo aumenta, não significa que ele vai para as nuvens; o que acontece é que o custo total de produção é maior do que o custo da impressão, só isso; essa quebra de expectativa é o problema a ser enfrentado, mas é importante ressalvar que um bom resultado continua sendo perfeitamente viável do ponto de vista financeiro.]

Até aqui, falamos de plotagens, e nem sequer mencionamos o vinil de recorte, onde os paradoxos são ainda mais dramáticos. Não há quem conheça o processo e não fique chocado. Começa como uma aparente maravilha: o arquivo vetorial é enviado para o equipamento de recorte; este possui um braço mecânico com uma lâmina que recorta todos os contornos com precisão; é um sonho que se realiza: aquele texto de dois mil toques será adesivado na parede com perfeição.

Mas antes de ir para a parede muita coisa ainda terá que acontecer. É nesse momento que entra em cena o depilador – o profissional encarregado de tirar com estilete e pinça todo o vinil que não deve ir para a parede. Sim, porque o equipamento eletrônico se limita a fazer o recorte dos contornos, e deixa para os humanos o trabalho de separar o que deve ser adesivado na parede e o que não deve. E assim inicia-se a lenta e inglória tarefa de retirada manual do vinil externo e interno de letra por letra, incluindo aí os olhos de todos os As, Bs, Ds, Os, Ps, Qs, Rs. São horas e horas de trabalho, numa tarefa que foi gentilmente batizada de ‘depilação’. E depois ainda tem a aplicação da máscara, a locação correta, o controle da aderência na superfície, a precisão do registro no caso da imagem ter mais do que uma cor… Vamos parar por aqui, porque já deu para perceber o tamanho da dependência do trabalho artesanal.

O design ambiental condensa os paradoxos que fazem o digital rimar necessariamente com o artesanal. Isso não impede que os benefícios dos equipamentos à disposição no mercado sejam imensos. Mas também nos obriga a compreender que um projeto ambiental não termina com o fechamento do arquivo para impressão.

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