Se existe um trend inegável – no sentido de uma tendência de fundo, de temporalidade longa e amplitude vasta – é, sem dúvida, a estetização de todas as esferas do cotidiano, uma das faces do capitalismo pós-industrial. É verdade que houve outras épocas em que a obsessão estética sobrepujou os aspectos práticos, como o estilo de vida rococó das cortes setecentistas, ultracodificado, ou o dandismo simbolista com seu mantra “a existência como obra de arte”. Por outro lado, a ideia de estetização como elemento distintivo da pós-modernidade também não é nova, estando em pauta desde os anos 90, pelo menos. Nada disso chegaria perto, no entanto, do atual impulso estetizante, quer por sua generalização, quer pela intensidade com que o fenômeno ocorre no presente, ou ainda, por sua transformação em condição sine qua non para todas as formas de consumo. De fato, o consumidor está cada vez mais em sintonia com uma vida dedicada ao prazer estético, em definição ampla: a fruição dos sentidos e da natureza, as sensações do corpo, o jogo das aparências e das modas, o entretenimento, as viagens, os jogos – em uma palavra, a “multiplicação das experiências sensíveis”. Essa, pelo menos, é a tese do último livro do filósofo francês Gilles Lipovetsky, “L’esthétisation du monde” (“A estetização do mundo”), escrito em parceria com Jean Serroy.

É claro que há movimentos mais subterrâneos estruturando esse comportamento. O hiperindividualismo, o narcisismo, o prazer do instante, o desejo de expressar-se e de “ser você mesmo” configuram uma ética que, como sempre, também é uma estética. Nesse caso, uma “est-ética”, uma ética estética da vida, que é também de massa. Vivemos uma estetização democrática, que não se limita mais a estratos ou categorias sociais. O anseio pelo belo deixou de ser acessório ou distintivo de classe para ocupar o centro da escala de valores que compartilhamos.

Além de tocar a todos e a tudo – das roupas e objetos à casa e aos interiores, do digital à cidade, da alimentação ao entretenimento, do turismo à arte, do popular ao erudito, do underground ao mainstream –, a estetização contemporânea opera por um método de crossover sistemático, misturando todos esses territórios e desafiando as classificações estanques, conhecidas até aqui. As excepcionais séries de televisão produzidas atualmente são entretenimento, arte ou mercado? Como definir os melhores momentos das experiências gastronômicas de hoje? E quando Marina Abramovic se associa a Jay-Z, onde começa a arte, onde termina o pop?

O caso do design é emblemático e talvez ilustre a macrotendência que discutimos aqui melhor do que qualquer outro campo. Nas últimas décadas, a concepção de design migrou de “uma camada final de verniz”, como boa parte do mercado ainda o considerava, para uma espécie de princípio ativo que potencializa o projeto, seja ele qual for. Com a tecnologia e o marketing, o design forma o tripé de sustentação das iniciativas bem-sucedidas. Na economia da variedade, da personalização, da inovação em permanência, o design torna-se definidor da identidade de produtos e serviços, participando, mais do que nunca, da lógica de construção das marcas – a ponto de hoje ser possível afirmar que “sem design, não há marca”. Para o designer, o novo status traz consequências importantes, entre as quais o seu afastamento da figura do engenheiro (sem menosprezar competências técnicas, bem entendido) e uma aproximação crescente com o artista, o criativo. É assim que o campo do design acaba por originar e cultivar o seu próprio star system, como a moda.

Nem todos veem o novo quadro com bons olhos, havendo os que lamentem pelo afastamento dos ideais da profissão. A meu ver, esse é um julgamento excessivamente severo sobre a produção contemporânea. Apesar dos excessos – que podem gerar um estetismo tão anacrônico quanto o modernismo asséptico que se pretendia negar -, a exigência por beleza e emoção cresce pari passu com as demandas por simplicidade, cidadania e respeito ao ambiente, criando novas alianças entre “lógica artística” e “mundo design”, ético e verde. Mais do que o futuro, quero crer, é o presente, no sentido de uma resposta mais afinada com as demandas individuais e sociais, que está sendo gestado nessas novas e excitantes hibridações.

Arte por: Indianara Barros

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