artigo por Lia Krucken

Ao tomarmos um bom vinho francês ou italiano experimentamos uma qualidade ligada a um território, a uma nação e a tradições incorporadas pela sociedade ao longo dos anos. A França e a Itália são importantes referências na promoção do reconhecimento de seus produtos, investindo fortemente em ações de conscientização do consumidor, no fortalecimento da imagem destas mercadorias e dos territórios de origem e no desenvolvimento de serviços relacionados, como hotéis e restaurantes. Não por acaso, muitos produtos franceses e italianos têm reputação tão positiva.

Para exprimir essa ligação entre o produto, o território e as pessoas que o produzem, o francês usa o conceito de “produtos do terroir”.  Terroir é um território caracterizado pela interação com o homem ao longo dos anos, cujos recursos e produtos são fortemente determinados pelas condições do solo, do clima e culturais. O termo que mais se aproxima na língua portuguesa seria “produto local”.

Observamos, também, uma crescente tendência desta valorização no Brasil, como no caso dos famosos Doces de Pelotas, da cachaça de Luís Alves e de Salinas, do Café do Cerrado Mineiro, dos vinhos do Vale dos Vinhedos e do queijo do Serro em Minas Gerais, além de diversos outros produtos que trazem em si características dos territórios de origem e das comunidades que os produziram (Fig 1.).

terriorios

Fig. 1. O produto é parte do território e da comunidade que o produziu.

Mas o que realmente diferencia estes produtos? Quais elementos os tornam especiais? Há um valor emocional associado aos produtos, que respondem ao interesse dos consumidores pelo ‘autêntico’ e ‘original’. Assim, o consumo torna-se uma experiência única, um ritual de apreciação de qualidades ímpares. O mesmo ocorre na hotelaria e gastronomia. Neste caso, a intenção é criar momentos memoráveis, os quais o cliente deseje repetir e compartilhar com outras pessoas.

Porém não basta um produto ter alta qualidade; é preciso que seus atributos sejam percebidos com sucesso. Ao escolher um produto, as pessoas buscam informações que possibilitem rastrear e identificar suas qualidades.

O design pode contribuir significativamente neste contexto, buscando formas para tornar visível à sociedade a história por trás dos produtos. Contar a “história do produto” significa comunicar elementos históricos, culturais e sociais associados, possibilitando ao consumidor avaliar e apreciar o produto de forma mais ampla – considerando, por exemplo, os serviços ambientais embutidos no próprio produto. O consumidor consciente pode se perguntar, por exemplo: Como os recursos ambientais foram utilizados na produção? Qual impacto ambiental, social e econômico deste produto? Essa produção ativa o território de origem, preservando e valorizando saberes tradicionais?

Ao incorporar esses valores no design de produtos, serviços e embalagens, o designer pode contribuir para a adoção e a valorização de práticas sustentáveis na produção, na comercialização e no próprio consumo (Fig. 2).

Figura 2. A qualidade ampliada envolve o produto, o território e as relações entre produtores e consumidores.

Figura 2. A qualidade ampliada envolve o produto, o território e as relações entre produtores e consumidores.

Para que a comunicação esteja alinhada à mensagem que se deseja transmitir é essencial considerar alguns aspectos, como reforçam Krucken e Trusen (2009):

  1. as imagens e os textos são compreendidos fácil e rapidamente?
  2. a linguagem utilizada é adequada ao público-alvo?
  3. a mensagem motiva e mostra coerência em relação aos valores dos produtores e aos dos consumidores?
  4. o meio de comunicação apoia a mensagem, oferecendo outros elementos de referência? (ex: uma embalagem que permite o uso de refil comunica valores relacionados a sustentabilidade e podem fortalecer a imagem do produto).

Ao escolher um produto, valorizando as tradições que neles estão embutidas, o consumidor torna-se parte desse ritual de produção e consumo, que começa na terra e continua nas nossas mesas. É importante considerar que a qualidade do território, que está presente no produto, também se estende ao consumo. O consumidor pode resgatar sua ligação com a terra, escolhendo e promovendo produtos, apreciando e dando continuidade aos seus significados.

Para brindarmos com um bom vinho, por exemplo, foi necessário as uvas fossem selecionadas, cultivadas, processadas. Foi necessário colhê-las, produzir a bebida, envasá-la, rotulá-la, transportá-la até chegar a nós. Sem contar, a chuva, o sol e o conhecimento que foram precisos para resultar na qualidade do vinho. Às vezes, na correria do dia-a-dia, não percebemos o conjunto de elemento que um “simples” brinde carrega.

É, apreciar a qualidade, exige competência: requer tempo para ser produzida e apreciada. Em outras palavras, precisamos lentificar os tempos e os modos nos quais nos relacionamos com as pessoas, as lugares e aos bens. Já existe um movimento nesse sentido: Slow Food.  Afinal, a comida sempre foi, ao longo da nossa existência, um grande motivo para reunir pessoas, conversar e apreciar as coisas boas da vida.

O design – como um importante aliado na busca pela qualidade de vida – pode contribuir efetivamente no desenvolvimento e na comunicação de soluções inovadoras e sustentáveis, aproximando produtores e consumidores, dando transparência e fortalecendo os valores que perpassam a produção e o consumo.

Lia Krucken é autora do livro “Design e território: valorização de identidades e produtos locais”. É doutora em Eng. de Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina, com pesquisa junto ao Politecnico di Milano. É professora na Escola de Design da Universidade do Estado de Minas Gerais.

Morou na França e na Itália e vem trabalhando com a valorização de produtos locais desde 1999, no Brasil e no exterior. Organiza workshops e realiza projeto com comunidades, visando valorizar produtos e territórios. Atualmente mora em Belo Horizonte. contato@designterritorio.com

Para saber mais:

– O livro Design e território: valorização de identidades e produtos locais, publicado pela Nobel, apresenta o design como um grande aliado na valorização de identidades, produtos e territórios, trazendo estudos de casos e experiências no Brasil, na Itália e na França. http://www.editoranobel.com.br/detalhepro.asp?produto=2016290

– Conheça o movimento internacional Slow Food: Nascido na Itália, este movimento tem como propósito proteger e valorizar os produtos locais, bem como a sociobiodiversidade que os originam. Contribui, desta forma, para a proteção e a valorização da identidade e da sustentabilidade dos territórios e das suas populações.  www.slowfoodbrasil.com

– KRUCKEN, L.; TRUSEN, C. A comunicação da sustentabilidade em produtos e serviços. In: DE MORAES, D., KRUCKEN, L. Design e sustentabilidade. Coleção Cadernos de Estudos Avançados em Design, Belo Horizonte: EdUEMG, 2009. Disponível para download: www.tcdesign.uemb.br

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