Êxodo é um colapso dos empreendimentos humanos, um ponto de divergência radical que obriga um povo a emigrar em massa. No ciclo contínuo cósmico de emergência > divergência > convergência, que é permanente, a humanidade já passou por incontáveis eventos semelhantes.

O que você talvez não saiba é que os exemplos são muito mais frequentes do que imaginamos. Aqui perto, no Peru, Machu Picchu é uma pequena cidade pré-colombiana a 2.400 metros de altitude, construída no século 15 e abandonada depois da destruição do Império Inca pelos espanhóis. Nenhum invasor da época a conheceu. Ela se transformou em uma lenda até ser descoberta em 1867 por um empresário alemão que vendeu “tudo o que encontrara” a colecionadores europeus e norte-americanos. Em 1911, a Cidade Perdida dos Incas foi oficialmente redescoberta pelo professor Hiram Bingham. Depois de 100 anos, Machu Picchu é uma atração turística bem cuidada e Patrimônio Mundial da Unesco.

O motivo dessa história é iluminar a importância do legado do design para a humanidade. Ainda existem diversas teorias sobre a finalidade da existência de Machu Picchu: abrigo secreto para o soberano, supervisão da economia ou universidade de astronomia e de técnicas agrícolas. Mas as únicas certezas vêm do estudo da herança da arquitetura e dos objetos encontrados, frutos do design inca.

Esse é um exemplo conhecido, perto e recente. Poucas pessoas conhecem o assentamento neolítico de 6.700 a.C. em Çatalhüyük, na Anatólia, Turquia. Os estudiosos ainda não sabem por que o êxodo dos habitantes aconteceu. Mas através do design encontrado sabemos que eles entravam em suas casas pelo teto, por uma escada móvel de madeira. Não havia ruas e o trânsito era por cima dos telhados planos. Paredes pintadas, esculturas e objetos de uso diário foram deixados para trás. As casas e estábulos eram construídos de tijolos de barro e os mortos eram enterrados dentro de casa. Existia um culto a um deus em formato de touro. As estátuas femininas são cuidadosas e em maior número do que as masculinas.

A história continua, vai sendo escrita a cada descoberta do design abandonado.

A comunidade de 3.100 a.C. em Skara Brae, na gélida Orkney, Escócia, foi descoberta em 1850, depois de uma tempestade. Um estudioso afirma que os habitantes abandonaram suas casas de forma repentina, deixando para trás utensílios e adornos valiosos. O que aconteceu? Ninguém sabe ainda, mas o design daqueles pescadores e agricultores pode contar.

Mohenjo Daro, no Paquistão, entrou em colapso a partir de 2000 a.C. Os habitantes de Anasazi, Mesa Verde, nos Estados Unidos, estão desaparecidos desde 1200 a.C. A fantástica Ajanta, em Maharashtra, na Índia, foi abandonada no século 2 a.C. e redescoberta em 1819. Tik’al, na Guatemala, desapareceu há mais de mil anos. Copán, em Honduras, começou a ser sepultada na selva a partir do século 9. Ambas as cidades não foram descobertas pelos invasores espanhóis, tal a sua absorção pela mata tropical. Angkor Vat, no Camboja, foi construída no início do século 9, abandonada no século 15 e redescoberta no século 19.

Vamos ao lugar mais isolado do planeta. Rapa Nui, redescoberta na Polinésia, em 1722, pelo explorador holandês Jacob Roggeveen. Na época, era uma ilha com vegetação rasteira e pobre em fauna, habitada por índios canibais que comiam ratos, com canoas rudimentares e uma agricultura pobre. Mas havia algo a mais que surpreendeu os europeus: quase 900 estonteantes moais, esculturas de até 20 metros de altura, espalhados pela ilha. De onde vinha aquela magnífica manifestação de design? Certamente, não daquelas criaturas insignificantes sem tecnologia mínima!

Na história reescrita, os cientistas indicam que a ilha era habitada por pássaros e cardumes de peixes, além de coberta de florestas de árvores grossas e palmeiras gigantes. Os primeiros polinésios chegaram perto de 900 d.C. O desmatamento coincidiu com a agricultura, que permitiu o aumento da população. Os moais foram produzidos entre 1000 e 1400. Em 1200, havia 30 mil habitantes e as florestas começaram a diminuir. Em 1400, as florestas morreram. Os habitantes ficaram sem árvores, sem canoas, sem peixe, sem comida. Em 1650, o canibalismo e os ratos viraram fonte de proteína. A fome e a guerra deixaram duas mil pessoas quase à morte.

Nessa triste história, não houve êxodo. O povo rapanui quase desapareceu e quase matou a própria ilha. Essa é uma metáfora poderosa, se fizermos uma comparação com a ilha Terra. Será que algum dia seremos redescobertos e estudados pelo nosso design?

Arte por: Fernando Ratis

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