Juan Saavedra

Melhorar a relação do passageiro com os trens cariocas. Este foi o objetivo que norteou o trabalho do designer carioca Bruno Batella, responsável pelo projeto de design do interior e da parte externa dos novos trens coreanos adquiridos pelo governo do Estado do Rio de Janeiro

Contratado pela Script, agência de publicidade que atende à Central de Transportes Ferroviários, o designer Bruno Batella desenvolveu rapidamente o projeto de redesign dos trens do Rio de Janeiro, entre novembro de 2004 e fevereiro de 2005. No processo de pesquisa, ele interagiu com diversas pessoas, desde os operadores do sistema ferroviário até os representantes da fábrica de trens, passando pelas equipes de manutenção e também pelos passageiros.

Nesse trabalho, Batella percebeu que uma das principais ações do projeto era valorizar a auto-estima do usuário, habituado ao desconforto funcional, ergonômico e visual deste tipo de transporte no Estado. Afinal, o Rio de Janeiro não tinha novos trens há 30 anos e, pela primeira vez, passaria a ter uma frota projetada exclusivamente para a cidade.

O conceito básico do projeto de design foi a valorização dos passageiros transportados. Uma das referências era o contraste entre os trens e o metrô do Rio. “Todos queriam que os trens conquistassem um novo status. Ouvi que no metrô as pessoas não urinam, não chutam, não quebram, não depredam. Isso acontece, em parte, porque os usuários se sentem bem no metrô que é confortável, mais bonito e mais bem conservado”, conta Batella.

Seu ponto de partida foi a observação de fotografias que mostram as ramificações dos trilhos e suas curvas, o que o fez lembrar dos vasos condutores das folhas das plantas. “Achei muito óbvia a analogia: trilho/trem/movimento e as plantas que transportam a seiva pelas veias. A motivação tinha de ser algo vivo. Eu queria quebrar a geometria do aço e do ferro – materiais encontrados nesse tipo de transporte. Havia muito paralelismo. Essa disposição em colunas me incomoda. Quis dar fluidez. Não há ângulo reto, não há quinas”, explica o designer.

Os usuários conheceram a novidade no dia 13 de julho deste ano, data da viagem inaugural que saiu da Central do Brasil, no centro do Rio de Janeiro, até a estação de Bangu. “Estou confiante. Quando as pessoas são bem tratadas, respondem bem”, afirma.

O projeto

Os trens são fabricados pela empresa coreana Rotem, responsável pela parte mecânica e estrutural. Apesar de ter sido chamado para desenvolver principalmente a parte interna do trem, Bruno Batella também promoveu mudanças na máscara frontal, cujo formato foi concebido de acordo com as restrições impostas pelo fabricante. “A idéia era dar uma aparência mais aerodinâmica ao trem, que não é aerodinâmico, para tirar a ‘cara’ de ônibus”, conta o designer. Batella mudou o desenho dos faróis, que passaram a ser embutidos. Outra mudança foi a eliminação do retrovisor. “Nas conversas que tive, verifiquei que, por hábito, os condutores não usam os retrovisores, pois se sentem mais seguros colocando a cabeça pela janela para olhar se todos os passageiros já entraram nas composições”, relata.

A programação visual externa do trem teve o objetivo de conferir uma aparência mais moderna. O padrão das listras sobre a dianteira e a lateral do trem teve a finalidade de integrar a composição externa ao projeto do interior. Entretanto, talvez este quesito não seja aproveitado, em função do uso de publicidade na parte externa do trem. Na cabine, Batella redesenhou o manche (hand-controller). “O condutor tem de ficar com a mão o tempo inteiro no manche, senão o trem pára. Fiz uma adaptação para aumentar a sensibilidade do equipamento e dar um pouco mais de conforto ao profissional que conduz o trem”, relata.

Os bancos de passageiros, confeccionados com fibras de vidro, mereceram atenção especial. Foram produzidos modelos para dois, três e quatro passageiros. Os assentos têm 6° de inclinação em relação ao plano horizontal, enquanto os encostos possuem 105° em relação ao plano horizontal. Segundo Batella, os padrões técnicos são diferentes daqueles utilizados na Europa onde o biótipo é mais robusto. “Procurei adaptar os bancos aos padrões sul-americanos. O encosto, por exemplo, é mais curto”, destaca.

O processo de desenvolvimento dos bancos foi acompanhado por Batella junto à empresa fluminense responsável, a Pifer Projetos de Interiores Ferroviários. Os assentos foram projetados de acordo com a disposição interna, gerando uma linha com três modelos de bancos. Batella criou ainda uma saia para a parte inferior dos bancos. Além de melhorar o arranjo estético do conjunto, o formato tem o objetivo de facilitar a limpeza ao eliminar vãos e reentrâncias no interior das composições. A definição da padronagem gráfica dos assentos e encostos acompanhou o arranjo cromático do projeto. Já o revestimento ganhou tecido antichama de alta gramatura.

Nos anteparos laterais e nas barras de apoio (pega-mão) o design seguiu a proposta de eliminação dos ângulos retos. Os anteparos têm curvas e linhas que remetem ao formato de uma folha. Uma das preocupações foi eliminar as esperas do chão para aumentar a sensação de espaço. Por isso, as barras saem das paredes dos trens. Batella desenhou ainda o modelo das latas de lixo.

A julgar por uma reportagem publicada no Jornal dos Sports, em 18 de agosto de 2006, a primeira impressão dos usuários foi positiva. A passageira Velaine Viana diz: “É a segunda vez que viajo nesse trem. Quando entrei pela primeira vez me senti no metrô. Gostaria de utilizar mais vezes”, afirmou. De acordo com a Supervia, empresa concessionária do serviço, os novos trens vão atender a Zona Oeste e a Zona Norte do município do Rio de Janeiro, alem de três cidades da Baixada Fluminense.

Ficha técnica

Capacidade – 1.300 passageiros (228 sentados, em bancos individuais, e 1.072, em pé). O trem é composto por quatro vagões contíguos, interligados por uma espécie de sanfona, o que permite aos passageiros passar de um vagão ao outro.

Carros e trucks – Rotem (Coréia), responsável pela parte mecânica e estrutural.

Parte elétrica e sistemas de tração – Toshiba (Japão)

Bancos dos Passageiros – Pifer Projetos de Interiores Ferroviários (Três Rios, RJ, Brasil)

Pantógrafo e condicionador de ar – Fayvelei (França)

Bateria – Hoppcke (Alemanha)

Sistema de sonorização – Motorola (EUA)

Equipamentos de computação, comunicação visual e freio – Yugin (Coréia)

Design – Bruno Batella

*Juan Saavedra é jornalista e trabalha no Centro de Design do Paraná.

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