A curiosa trajetória dos óculos – objeto que já foi nobre, passou pelo status de prótese e, agora, é design

Aline Brasil

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Século XVII

“Por que você não olha pra mim? / Me diz o que é que eu tenho de mal/ Por que você não olha pra mim? /Por trás dessa lente tem um cara legal”. Nos anos de 1980, época em que a canção Óculos, do grupo Paralamas do Sucesso, estourava nas rádios, usar óculos podia até ser um problema. Atualmente, a moda trouxe de volta as tendências de duas décadas atrás – junto com as temíveis ombreiras -, mas a necessidade de óculos já não é vista como algo ruim. Ao contrário, óculos são sinônimos de estilo e, além de essenciais para aqueles que possuem problemas de visão, são acessórios imprescindíveis para o pessoal mais moderninho e descolado, no melhor estilo trendy.

Óculos também são design. Pelo menos foi nesta idéia que o francês Alain Mikli apostou no final da década de 1970, quando, aos 23 anos, recém formado em óptica, fundou a Mikli Diffusion. Era o início de uma carreira internacionalmente reconhecida, de uma revolução no campo óptico e de um novo nicho para o design -os óculos deixavam de ser uma espécie de prótese para se transformar em objetos essenciais para quem deseja ver e ser visto.

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Século XVIII

Muito antes de serem considerados produtos de design, os óculos tiveram diferentes tipos de status ao longo da História. Na verdade, a própria origem dos óculos é controversa, o que torna impossível creditar o mérito da invenção a uma única pessoa. O correto é afirmar que inúmeras pessoas anônimas, tanto no Oriente quanto no Ocidente, contribuíram, gradativamente, para o aperfeiçoamento deste instrumento visual.

Mesmo com as versões dissonantes, não há dúvidas de que as tentativas de enxergar mais e melhor são parte da história da humanidade. Por volta de 500 a.C., o filósofo chinês Confúcio registrou a existência de lentes rudimentares, às quais eram atribuídas propriedades medicinais e mágicas, como a de prolongar a vida das pessoas. Eram amuletos, mas não eram, ainda, acessórios visuais.

O astrônomo, geógrafo, matemático e físico egípcio Ptolomeu até descobriu as leis ópticas sobre a refração da luz no início da era cristã, mas só alguns séculos depois, na Idade Média, é que monges desenvolveram a “pedra de leitura”, uma espécie de lupa que aumentava o tamanho das letras. Por volta de 1267, o monge franciscano inglês Roger Bacon, conhecido como Doctor Mirabilis, provou que pessoas com deficiência visual enxergavam melhor através de lentes lapidadas.

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Meados do aéculo XIX

Naquele mesmo século, alguns dos relatos extraordinários do comerciante e navegador veneziano Marco Polo davam conta de que os óculos eram comuns na China. A descrição desses objetos também era recorrente nas histórias dos poucos aventureiros que sobreviviam às expedições ao Extremo Oriente, no início do primeiro milênio da era cristã. Não é por acaso que o visionário Marco Polo era de Veneza. Afinal, a cidade funcionava como uma ponte entre o Oriente e o Ocidente. E, provavelmente, foi em conseqüência desse caráter cosmopolita da cidade que surgiu por lá, entre 1270 e 1280, uma armação montada com um par de lentes, para se colocar na frente dos olhos, com a finalidade de leitura.

O único problema era o quê ler. Problema esse resolvido por Gutenberg, em 1445, ao inventar a imprensa. Começava, então, a Renascença, época de efervescência intelectual e cultural e, conseqüentemente, de elevado desenvolvimento técnico e científico. A imprensa de Gutenberg rapidamente se espalhou pela Europa, retirando os livros do domínio exclusivo da Igreja. Neste aspecto, a invenção dos óculos foi essencial, já que eles possibilitavam a leitura das pequeninas letras que surgiram nos impressos tipográficos.

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Fim do século XIX

Os óculos, a partir de então, passaram a simbolizar cultura, grande saber e erudição. Eram, também, sinônimo de nobreza. Os pioneiros na fabricação de lentes de cristal lapidado foram os vidreiros de Veneza. Eles aproveitaram as técnicas e o conhecimento adquiridos pelos talentosos trabalhadores da arte vidreira desenvolvida na vizinha cidade de Murano. Na seqüência, outras cidades da Europa – tais como Nuremberg e Augsburg na Alemanha, e Rouen e Flandres na França – também começaram a produzir óculos, ou melhor, jóias da visão.

Os óculos eram considerados como jóias porque eram raros e caríssimos. As peças chegavam a ser relacionadas em inventários de bens de família e deixadas em testamentos como herança. Esta atitude foi tomada, inclusive, pelo rei francês Carlos V (1364-1380), conhecido como O Sábio. Esses primeiros óculos auxiliavam apenas nos problemas de visão de perto, ou seja, eram utilizados para a leitura e corrigiam os problemas de presbiopia ou “vista cansada”. Aos poucos, começaram a corrigir também a hipermetropia.

O primeiro registro sobre o uso de lentes corretivas para a miopia data de 1441. O astigmatismo recebeu correção ainda mais tarde, em 1827, na Inglaterra. Antes disso, em 1784, o famoso estadista americano Benjamin Franklin, o qual também era inventor, cientista e filósofo, inventou as lentes bifocais. As lentes multifocais, entretanto, só apareceram por volta dos anos de 1970.

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Anos 40

À medida que evoluíam as lentes, o mesmo foi acontecendo com as armações. No início, não existiam óculos como conhecemos na atualidade. As armações eram, na verdade, monóculos feitos para amparar uma única lente. Mais tarde vieram os primeiros modelos de duas lentes, presos no meio por um rebite, que se abriam ou fechavam em forma de “V”. O usuário precisava apoiar os óculos no dorso do nariz, já que eles não possuíam hastes laterais.

Os exemplares de óculos considerados mais antigos, contendo armações com duas lentes, fazem parte do acervo do Museu de Nuremberg, na Alemanha. Acredita-se que eles pertenceram ao burgomestre – cargo semelhante ao de prefeito – da cidade de Nuremberg que viveu de 1470 a 1530. Esses óculos são constituídos de duas lentes biconvexas, redondas e unidas por uma sólida peça de couro. Com o passar do tempo, o couro foi dando lugar às armações feitas em madeira, chifre, casco de tartaruga, osso, marfim e alguns metais como ferro, prata, ouro e outras ligas.

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Anos 50

Em 1939, o nylon foi lançado na Feira Mundial de Nova York e logo se tornou um excelente material para os óculos. Outros compostos sofisticados, além do nylon, também fizeram e fazem diferença. É o caso dos plásticos, das resinas e dos policarbonatos. A busca por materiais leves, resistentes, confortáveis e fáceis de serem trabalhados é constante. Um metal que conjuga todas essas características é o titânio, uma das tendências atuais.

Conforto é um conceito relativamente novo nos óculos, ainda mais se pensarmos nos primeiros exemplares, aqueles que sequer possuíam hastes laterais e ficavam apoiados sobre o nariz. O modelo pince-nez, por exemplo, era constituído por uma ponte fixa que se prendia ao nariz. Outro modelo é o lorgnon, tipo que ostentava uma haste lateral inferior para segurar com a mão.

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Anos 60

Outros sistemas de fixação começaram a ser desenvolvidos, mas, de qualquer modo, não eram nada confortáveis. No princípio, havia cordéis ou fitas de couro amarradas atrás da cabeça ou passando por trás das orelhas, pendendo sobre o peito com um contrapeso que fixava os óculos. Após essas amarrações, desenvolveram-se as hastes laterais com molas espirais que pressionavam as têmporas para segurar os óculos na posição correta. Em 1730, surgiram as hastes laterais rígidas para se apoiar nas orelhas. Posteriormente, foram inventadas as hastes laterais com angulação para melhor apoio e fixação atrás das orelhas. Já as hastes laterais dobráveis apareceram em 1752, na Inglaterra.

Os óculos evoluíram e ficaram mais acessíveis, até que em certo momento o status de objeto nobre foi substituído pelo de prótese. Conseqüentemente, os instrumentos utilizados no auxílio da visão tornaram-se uma necessidade incômoda e indesejada, sem nenhum charme. Foram os desfiles de moda, a partir da metade do século XX, que resgataram o glamour dessas rejeitadas peças.

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Anos 70

Os fabricantes começaram a licenciar as grifes de costureiros famosos e, assim, a moda elevou os óculos à condição de acessório nas coleções. As peças deveriam ser renovadas a cada estação, do mesmo modo que as roupas. Casas de moda como Armani, Valentino e Chanel investiram massivamente nesse filão.

Nos anos de 1980, o processo de valorização do design no universo dos óculos intensificou-se, estimulando o consumo de acordo com as últimas tendências. Mas foi somente nos anos de 1990 que se instalou a “febre” dos óculos de design. Atualmente, é possível identificar uma diferença entre os óculos de design e aqueles que levam a assinatura de grifes. Enquanto as grifes fabricam milhões de exemplares e os espalham por todo o mundo, os óculos de design são exclusivos, uma vez que são produzidos em pequena escala, por meio de técnicas tradicionais de fabricação. Além disso, a identidade única imposta pelos designers a essas peças é um dos principais diferenciais.

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Anos 80

O design de óculos ainda não é explorado pelos designers brasileiros, mas o óptico francês Eric Gozlan, radicado no Brasil, dá a dica de que a área é promissora e merece atenção. O grande sinalizador deste movimento é Philippe Starck. O arquiteto francês, em parceria com o óptico Alan Mikli, desenvolve a linha Starck Eyes, que sintetiza o conceito de biovisão – óculos que buscam inspiração no corpo humano. Além da dupla, designers alemães, franceses e japoneses se dedicam cada vez mais à área. Confira, a seguir, alguns dos principais nomes.

Artigos originalmente publicado na abcDesign 15. Confira na revista também uma lista dos principais designers de óculos mundiais e suas principais caracaterísticas.

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