Joana costuma dizer que falo coisas que as pessoas não entendem completamente. Ela tem uma teoria na qual, por estar tão mergulhado na prática do design thinking, acabo achando que todas as pessoas sabem sobre o assunto. Ela tem razão, estou viciado demais.

Estávamos, nós dois, conversando com o pensador e ativista cultural Jailson de Souza e Silva quando ele nos desafiou: – O que é design, afinal? Respondi que design é tudo que não é natureza. Então, ele sorriu maroto e respondeu que tudo que não é natureza é cultura. É a pura verdade, mas a ferramenta para gerar a cultura é o design. Entre a intenção e o resultado, existe o processo de design. O Nobel Herbert Simon dizia que o percurso da tomada de decisão é inteligência > design > escolha, nessa ordem.

Cada qual percebe a vida através do seu filtro mental. Steve Wozniak, disse que “a Apple nunca foi inovadora mas, sim, inventiva. Inovar é pegar algo e aperfeiçoar. Inventar é criar do zero.” É o ponto de vista de um inventor. Desse ponto de vista, conheci uma iniciativa surpreendente, o departamento i9 da Rede Globo, uma fábrica de inovação permanente.

A organização Globo é uma especialista em contar histórias. Ela não inventou a televisão, mas criou uma linguagem diferenciada de fazer televisão. Depois do sucesso estabelecido, foi à busca da novas formas de melhorar a sua entrega.

A Rede Globo sempre esteve na vanguarda de tecnologia de ponta. Mas o diferencial do i9 é a busca pelo processo cultural inovador baseado no conceito contínuo de inovação aberta. O programa piloto da incubadora de projetos inovadores era formado por 9 voluntários em 2008. Quatro anos depois, eram 1.270 profissionais de diferentes áreas e centrais em rede colaborativa, com mais de 435 novas ideias, sendo 20% já concluídas e aplicadas.

Na busca pela inovação, o i9 criou e praticou um processo próprio bem análogo ao design thinking e desenvolveu uma metodologia em 9 etapas: Inspiração, Ideação, Integração através de multidisciplinas, Implementação de protótipos, Indicador de métricas, Informação compartilhada, Internalização operacional, Inspeção da continuidade, Impacto na mudança de cultura.

A experiência com centenas de projetos fez com que a Globo traçasse um perfil dos seus voluntários:

  • Eles são curiosos e buscam aprender continuamente;
  • Eles têm iniciativa e mobilizam os outros para novas ações;
  • Eles conseguem lidar com diferentes visões diante de um problema;
  • Eles são uma referência de qualidade no que fazem e compartilham o seu saber.

Outra convergência ao design thinking é a percepção da relevância dos atributos dos protagonistas. Tom Kelley, da Ideo, entendeu que suas equipes funcionavam melhor com determinadas personas e escreveu um livro sobre isso. No caso do i9, existe uma estrutura que facilita o fluxo da inovação.

  •  O tomador de decisão, que escolhe se um próximo passo é necessário ou se o desenvolvimento já terminou;
  •  O orientador do projeto, que possui a experiência necessária para coordenar os esforços de uma célula em busca do resultado;
  • O patrocinador, que oferece incentivo permanente e proporciona os recursos necessários;
  • O ativador, que além de participar ativamente do processo, distribui os recursos e cuida da integração entre os stakeholders.

Nos meus encontros com o i9, eu senti entusiasmo e resiliência, qualidades indispensáveis aos designers e aos inovadores. Os projetos que me compartilharam iam de tecnologia digital à analógica, de aplicativos à reciclagem de produção e roupas, de logística de transporte à utilização da água, de processos de maquiagem à cenografia ou iluminação.

Um livro de Philip Atkinson de 1990 calculava em 80% de desinteresse em construir uma cultura empresarial própria. Em 2013, na Reunião Magna da Academia Brasileira de Ciências, no Centro do Rio, o presidente da Natura, disse que “as empresas brasileiras não inovam porque não precisam.” Na mesma ocasião, o presidente da Gran-Bio, dizia que “ainda compensa copiar no Brasil, porque o ambiente não protege quem cria”.

Nesse ambiente brasileiro hostil à criatividade e inovação, é de enorme importância que a Rede Globo seja aplaudida pela sua iniciativa. Vida longa ao i9 e à televisão brasileira.

 

Editado em ABC Design, Abr/Mai/Jun 2014, páginas 38 e 39.

Arte por: Rafaela Lech

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