Dolorez Crochez, um ateliê que tem como missão inspirar transformações artísticas e educacionais individuais e coletivas, através de projetos integrativos e inovadores, utilizando o crochê como instrumento e forma.

A designer e artista plástica Karen Bazzeo, insatisfeita com a rotina e a produção convencional do design, resolveu voltar para si mesma e buscar inspirações daquilo que realmente gostaria de fazer. Foi assim que ela resgatou o crochê que fazia com a mãe quando criança, e lançou o Dolorez Crochez, um ateliê que mescla arte de rua, mensagens impactantes e é claro, crochê.

Trocamos uma ideia com a Karen sobre o começo, as inspirações e projetos:

O Começo

Nasci e cresci em Bauru. Sou formada em design editorial e trabalhei na área por aproximadamente 9 anos. Moro em SP há quase 6 anos. Depois de cerca de 2 anos em SP, trabalhando como designer, entrei em algumas crises profissionais e passei a questionar muito meu modo de vida, de trabalho, onde e como gostaria de estar, de fato, trabalhando. Então senti a necessidade de procurar algo que me satisfizesse de alguma maneira, mesmo que fosse um hobby. Foi quando comecei uma busca muito intuitiva e sutil. Quis resgatar algo que gostasse de fazer na minha infância, então me lembrei do crochê, que havia aprendido com minha mãe quando criança. Voltei pra SP crochetando e não parei mais. Aos poucos fui encontrando um caminho e no crochet uma forma de me expressar também.

 


O primeiro trabalho do Dolorez Crochez foi na rua. Comecei com pequenas intervenções e fui evoluindo o trabalho com algumas parcerias. Quando fiz o projeto de graffiti com os grafiteiros Felipe Primat e Julio Falaman, passei bastante tempo na rua, fazendo a instalação do trabalho e interagindo com as pessoas. A partir daí, meu gosto pelas instalações na cidade cresceram e comecei a espalhar frases, desenhos, coisas que me inspiravam de alguma maneira e que queria colocar para fora. Hoje em dia, a maioria dos meus trabalhos são relacionados a ocupação de espaços públicos, arte de guerrilha e empoderamento.

 

Inspiração e a rua

A rua é um contato direto e muito sensível que temos com as pessoas durante o processo. A experiência de poder conversar com todo tipo de pessoa que passa por ali é muito agregadora. Além disso, qualquer coisa pode inspirar: músicas, poesias, livros, textos que leio na internet, conversas com pessoas, olhares, histórias. Ultimamente, coisas que me revoltam também tem servido de inspiração. Nesses casos, eu tento não expressar com raiva ou de maneira negativa, e sim, de maneira positiva, justamente, negando o que fazemos muitas vezes por impulso. Infelizmente, nós vivemos numa sociedade onde é cultural agir de forma agressiva e violenta, insultar pra nos defender. Então eu tento fazer de modo oposto, mostrar o que acho importante de maneira positiva, para que as pessoas vejam que há outras maneiras de nos defender, deixando o ego e a raiva de lado, fazendo surgir uma coisa maior do que essas que revoltam.

 

Projetos

Hoje em dia trabalho apenas com o Dolorez Crochez. Meu projeto principal hoje é o “A rua é minha tela”, onde inspirada por músicas, poesias, pensamentos, entre outros, faço desenhos e frases e coloco nos muros dos lugares por onde passo. Tenho desenvolvido diversas peças para instalação mas que ainda estão aguardando pelo “muro perfeito”.

 

O “Ventre Livre” é o trabalho mais recente desse projeto, que surgiu diante de um sentimento de revolta na época em que as hashtags #meuprimeiroassédio bombaram. Fiquei muito tocada e sensibilizada com cada depoimento que li e ouvi. A partir daí iniciei a produção desse trabalho. A energia que é colocada em cada trabalho que faço transforma em expressão pura e objetiva o que tem dentro de mim. Quando terminei a peça, optei por não colocá-la nas ruas. Apesar da efemeridade fazer parte do meu trabalho, esse, especificamente, eu gostaria que se instalasse em um lugar especial. Procurei por bastante tempo e precisei segurar a ansiedade pra instalação, até que, aproximadamente 3 meses depois, surgiu a oportunidade de colocá-lo na Casa Jaya, uma casa em Pinheiros que promove diversas atividades como aulas de yoga, dança, cursos de culinária saudável, projetos musicais e encontros voltados para o feminino.

Também tenho ministrado oficinas, que unem o ensino da técnica do crochê com a vivência da prática de intervenções nas ruas com os participantes, além da roda de conversa, onde permeam assuntos como: ocupação de espaço público, resgate do artesanato, crochê como arte contemporânea e empoderamento feminino. Acredito que essa vivência provoca aos participantes a sensação de apropriação e torna-os mais pertencentes ao espaço ocupado.

Além disso, tenho trabalhado com o blog (https://dolorezeeu.wordpress.com/), onde tenho me dedicado bastante a falar sobre minhas experiências, instalações, vídeos, fotos, entrevistas com pessoas que me inspiram, meu dia a dia, processo de criação, transição de trabalho convencional pro trabalho que amo fazer, etc.

fotos: Lucas Hirai e Renata Ottoni

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