Aline Brasil / Rico Lins

Rico Lins

Rico Lins

A Exposição em Chaumont, a conhecida “cidade dos cartazes”, encerra o ano do Brasil na França e mostra as artes gráficas brasileiras em um lugar privilegiado

No ano de 1906, Gustavo Dutailly, deputado de Haute Marne – unidade francesa equivalente a um estado brasileiro -, doou à Biblioteca Municipal da cidade de Chaumont cerca de 10 mil documentos entre livros, jornais e gravuras, além de uma invejável coleção de cinco mil cartazes litográficos, muitos deles ilustrados por mestres como Toulouse-Lautrec, Grasset, Chéret e Bonnard.

Reunir um acervo como este não deve ter sido tarefa fácil, mas é bem provável que Gustavo Dutailly tenha se aproveitado do fato de que os grandes cartazistas da época eram franceses ou viviam na França. Assim, o país pode ser considerado um dos expoentes deste modo de comunicação marcante no século XX.

A cidade de Chaumont, entretanto, só se tornou a “cidade dos cartazes” quando começou a revitalizar a coleção de Dutailly. Em 1982, com o apoio da Diretoria do Livro do Ministério da Cultura da França, o acervo de cartazes começou a ser restaurado. Oito anos depois, a cidade de Chaumont começou a utilizar os silos desativados de uma velha cooperativa agrícola da região para abrigar um centro cultural comunitário com bibliotecas, midioteca, reserva técnica, oficinas, ateliês de serigrafia, espaços para exposições e uma sala de dramaturgia infantil.

O local, posteriormente batizado de Les Silos, há 11 anos é sede do Festival Internacional de Cartazes.

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Lucas Ribeiro e Evelise Strottman

Atualmente, Chaumont é mundialmente reconhecida pela qualidade de suas exposições e de sua coleção, sem falar no trabalho permanente dedicado à promoção das artes gráficas e do cartaz autoral. O acervo da cidade possui cerca de 30 mil cartazes, aos quais serão somados 60 cartazes brasileiros durante a exposição Brésil à l’Affiche.

Pela primeira vez, cartazes brasileiros serão apresentados em uma mostra paralela ao festival. De 13 de dezembro deste ano a 25 de fevereiro de 2006, a exposição – organizada pelo renomado designer brasileiro Rico Lins, com o apoio da Pan-americana Escola de Arte e Design – mostrará aos franceses que nós também sabemos fazer cartazes. O evento fechará o Ano do Brasil na França.

No começo de 2005, Rico Lins foi convidado pela organização do Festival Internacional de Cartazes da cidade de Chaumont para ser o curador da exposição. Segundo ele, em um primeiro momento, a idéia era selecionar somente cartazes históricos. Entretanto, ao visitar a cidade de Chaumont, em junho deste ano, ele percebeu que o grande destaque são, na verdade, os cartazes contemporâneos.

Com o apoio de historiadores e de outros designers, Rico Lins procurou e selecionou os trabalhos mais relevantes a partir da década de 1950, utilizando os seguintes critérios para avaliação: qualidade gráfica, relevância cultural e importância histórica. Além disso, designers de todo o País foram chamados para colaborar, enviando seus cartazes autorais e sugestões de outros nomes significativos. Foram selecionados 60 cartazes originais, todos em bom estado, sendo que muitos deles consistiam no único exemplar que o colecionador possuía.

Rogério Duarte

Rogério Duarte

Segundo Rico Lins, o mais notável neste processo foi o apoio recebido de vários designers, os quais se mostraram intensamente preocupados com o resgate da memória gráfica brasileira. A “batalha de juntar cartazes antigos” contou com a participação de muitos profissionais. “A adesão à chamada de trabalhos foi incrível, recebemos uma quantidade imensa”, comemora Rico Lins.

O evento, contudo, não será reduzido à exposição desses 60 trabalhos. Rico Lins explica que, além dos cartazes selecionados, haverá também um “varal digital” onde serão afixados cartazes criados inicialmente para produção em meio digital. Outras ações têm o objetivo de aproximar o design gráfico francês e brasileiro, tais como bate-papos e workshops ministrados por designers dos dois países.

A importância da exposição “O Brasil em cartaz na França” não se reduz ao alarde da afirmação “sim, nós temos design”. Mais do que isso, a oportunidade de sistematizar e organizar uma produção até então esquecida é um dos maiores méritos da exposição. Trata-se de um recorte histórico que revela e destaca alguns trabalhos até então encobertos pelo desleixo com que, infelizmente, tem sido tratada a história do jovem design brasileiro.

Outro importante ponto a destacar em todo o processo foi a pesquisa realizada, bem como o acesso aos acervos pessoais, muitos até então desconhecidos, mas que foram prontamente disponibilizados para a exposição. De acordo com Rico Lins, ao observarmos os exemplares de outras épocas, podemos repensar o cartaz, assim como a sua função e os seus desdobramentos em nossa era digital. Por fim, o evento possui a inegável importância institucional de encerrar com “chave de ouro” o Ano do Brasil na França, cumprindo a missão de melhorar ainda mais o “nosso cartaz” lá fora.

Seja marginal, seja herói

Rico Lins

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Rodolfo Vanni

No mundo contemporâneo, cada vez mais o design se articula pelo equilíbrio entre tecnologia, mercado e cultura. O conceito criativo do cartaz da exposição Brasil em Cartaz se resolve a partir de espaços gráficos definidos por essa reflexão: o lambe-lambe, o offset e a serigrafia. Sobreposição de linguagens e momentos tecnológicos que se interpenetram e se contaminam, como de resto fazem nas paredes de nossas cidades.

Como pregadores no deserto, os cartazes tipográficos resistem heroicamente em sua marginalidade. À margem do sistema produtivo, da indústria gráfica, da legislação urbana, do design e da propaganda, eles são pré-cartaz, pré-layout, pré-imagem, pré-tudo. Limitada às letras de madeira, às cores de impressão e ao formato do papel, a mensagem é textual, informativa, garrafal. Se respeitados estes limites, estão ao alcance de quem assim quiser: rápidos, baratos e descartáveis, desafiam teimosa e eficazmente a tecnologia, o mercado, a cultura e a estética de elite.

Comparada com a rusticidade do lambe-lambe, a precisão do offset é numérica, quase abstrata; sua fisicalidade reside no seu total controle do processo, formatos, suportes e tiragem. Herdeiro direto da litografia, sua expressão atual é digital: não é mais limitada pela técnica, mas pelo espaço de veiculação e pelo direito autoral. Com infinitas possibilidades de combinação, manipulação e reprodução, imagem e texto se fundem na mesma plástica, na qual sampling, movimento e ritmo são reais e literalmente recicláveis, móveis e sonoros. Com tantas limitações concretas à sua sobrevivência nos espaços urbanos atuais, a efemeridade intrínseca do cartaz se dissolverá, enfim, no lugar etéreo do virtual, incorporando à sua expressão som, animação, hiperlinks e desmaterialização?

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A serigrafia é requintadamente camaleônica, se adapta primorosamente do manual ao digital com baixo custo, rapidez e sofisticação. Com o insinuante nome de silkscreen, é responsável, depois da litografia, por grande parte da produção gráfica de excelência. Na qualidade cirúrgica de sua tela de seda se projetaram do protesto de Maio de 68 ao requinte das tiragens numeradas em cores e papéis especiais, da nata do teatro alternativo à quadricromia industrial em grande formato, da pop art à produção de quintal. Democrática e aristocrática em sua expressão, conserva o caráter essencialmente artesanal onde qualidade, liberdade e limite encontram sua síntese.

E como tecnologia, mercado e cultura não se excluem, mas se completam, ao cartaz que traduz a exposição coube expressar este equilíbrio. Lambe-lambe, digital e serigráfico, são três cartazes que dividem o espaço da mesma folha de papel. Impressos uns sobre os outros, convivem com a tolerância das linguagens, o atrito de expressões, a reflexão e o resgate de técnicas.

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