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Maria Celeste Corrêa

À primeira vista, ele era um garoto londrino daqueles bem normais. Amava muito mais a irreverência dos Rolling Stones do que os Beatles, cuja música era definida por ele como “doce demais”. Na escola, as notas eram todas baixas e seu grande prazer, descoberto por volta dos 10 anos de idade, era criar objetos de cerâmica. A família tinha sérias dúvidas quanto ao futuro do menino, mas ele foi crescendo e, de tanto por a mão no barro, descobriu o design e sua própria capacidade de desenvolver objetos usando muitos outros materiais. Hoje, Paul Priestman dirige a Priestman Goode, uma das mais prestigiadas empresas de consultoria em design de todo o mundo.

Além de poder e prestígio, Paul tem talento, muito talento. Dois de seus projetos ganharam o status de peças de arte e pertencem a importantes coleções de design: o Hot Spring radiator, exposto no Philadelphia Museum of Modern Art, e o Cactus heater, exibido no Victoria & Albert Museum de Londres. Sob o seu comando, e do sócio Nigel Goode, 25 designers trabalham para produzir algumas das mais geniais peças de design da atualidade: desde o mais prosaico macarrão, especialmente desenhado para absorver melhor o molho de tomates, passando pelo ventilador que possui pás de pano e, por isso, não oferece risco a quem o manuseia, até o incrível trem da companhia Virgin Trains que foi integralmente desenhado por seu escritório – dos assentos à iluminação, do sistema de comunicação às cabines, de fio a pavio.

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O segredo de tanto sucesso está na fórmula que mistura uma excepcional capacidade criativa com a sabedoria de aliar o design a outras áreas como a Matemática e a Engenharia. “A escola tradicional ainda segmenta o conhecimento e não sabe preparar profissionais para atuarem com design: ou a pessoa é remetida para as artes ou vai para o campo das ciências exatas. E o que o design deve fazer, na maioria das vezes, é unir esses dois mundos”, avalia Paul Priestman.

Outro ingrediente fundamental da vitoriosa receita de sua empresa, fundada há 18 anos, é saber elaborar bons contratos, talento que Priestman confessa, singelamente, pertencer muito mais ao seu sócio. “Antes de fundarmos a nossa companhia, o Nigel trabalhou em um grande escritório de design e aprendeu como se faz”, relata. Que a fórmula é perfeita, ninguém duvida: a fama de sua empresa ganhou mundo e 90% dos contratos da Priestman Goode são fechados com clientes estrangeiros.

Mas será que a presença maciça da companhia inglesa ao redor do mundo pode ser um indicativo do fim do design regional? “Não acredito nisso. Sempre haverá espaço para o design regional, ligado à cultura de um povo. O design de padrão mundial se aplica a produtos feitos em larga escala e de consumo globalizado”, define Priestman. Além disso, ao desenvolver um projeto, é exatamente o mergulho na cultura do país que permite aos designers criar produtos que sejam bem recebidos pelo público consumidor. “Esta é uma ferramenta muito importante para o sucesso de um projeto”, destaca.

E por que o design é tão importante? Na opinião de Priestman, é o design que agrega sentimentos e sensações aos produtos como, por exemplo, paixão e sensualidade. “Nós criamos a razão pela qual as pessoas compram os objetos, o motivo que as leva a desejar determinados produtos”, explica. No entanto, ele insiste que beleza não é tudo. “Na criação de um produto, a beleza é uma parte – muito importante – dentro de um enorme processo que envolve aspectos como segurança, eficácia e ergonomia. Por isso, o design precisa interagir com outras áreas do conhecimento”, enfatiza.

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A clareza de conceitos e a metodologia de ação da Priestman Goode atraem clientes do calibre da Disney, Hitachi, Fijitsu, Coca-Cola Schweppes, Virgin Trains, Airbus, Bombardier e até da brasileira Embraer, entre muitos outros. Aliada à eficiência e ao método está outro componente fundamental. “Acima de tudo, é preciso trabalhar com a emoção, pois aí está a essência do design”, aconselha Priestman. Além da emoção, Priestman dedica muito tempo e energia ao trabalho: são, em média, 12 horas por dia, de segunda a sexta. Nos finais de semana, Priestman libera a mente para o lazer e acumula combustível criativo para a semana seguinte.

Dos tempos de menino, restaram o jeito desarmado e a eterna curiosidade pelas coisas do mundo. Segundo ele, isso ajuda, e muito, a “construir” um bom designer.

“É preciso estar aberto, saber observar, liberar a criatividade e desenhar à mão”, diz. Para ele, design tem tudo a ver com o olhar. E onde reside o belo que abastece o olhar criativo de Paul Priestman? Ele ama a cor azul do céu, os desenhos animados produzidos no Japão, objetos de madeira, o Porsche 911 e, na música, adora o ritmo e o balanço do brasileiro Milton Banana (1935-1999), um dos principais bateristas da bossa nova. A estas paixões, Priestman associa um caráter inquisitivo e a vontade de continuar aprendendo, sempre, porque o design está em tudo e tudo pode ser design.

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Criações geniais da Priestman Goode

Mundo virtual – Um objeto menor do que um telefone celular é capaz de projetar um teclado virtual de computador sobre qualquer superfície plana. Ao aproximar os dedos das teclas virtuais, o equipamento “lê” a intenção do digitador e transmite o texto escrito para o computador. Projetado para a I. Tech Dynamic, o produto foi premiado este ano no Design Week Awards, realizado pela Design Week, principal revista do setor do Reino Unido.

Hospedagem com classe – Outro projeto vencedor do concurso Design Week Awards de 2005, recebeu o prêmio na categoria Hospitality Environments. Chamado de Yotel!, o apartamento de hotel apresenta soluções inteligentes e inovadoras para um ambiente que oferece muito conforto em um espaço reduzido.

A locomotiva do design – Desenvolvido para a Virgin Trains, o novo trem alia beleza, conforto, funcionalidade e muita eficiência. Todas as cores, texturas, peças, objetos e materiais foram obra da Priestman Goode. O projeto inteiro consumiu quatro anos e custou o equivalente a mais de 10 milhões de reais.

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Emergência com eficiência – O projeto é tão simples que chega a assustar. Afinal, por que é que ninguém pensou nisso antes? Trata-se de um pequeno recipiente com dois compartimentos: um carrega comprimidos e o outro traz a quantidade suficiente de água para auxiliar na ingestão dos medicamentos.

Sabor total – Como saborear melhor o macarrão? Com um novo design, a massa consegue “segurar” melhor o molho.

Conforto e segurança – Ideal para quem tem filhos pequenos, o ventilador feito com pás de pano não oferece riscos para quem toca no equipamento em movimento.

Praticidade e eficiência – O suporte de facas deixou de ser um problema na hora da limpeza: o objeto é feito de peças encaixadas e se abre, permitindo o acesso aos nichos onde os utensílios são guardados.

O céu é o limite – O projeto desenvolvido para o Airbus A380 deu origem a um novo conceito de voar. O avião tem uma área que lembra um transatlântico de luxo: escadarias, áreas de lazer, aposentos sofisticados e até banheiros com box e banheiras. Um luxo só!

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