Sandra Regina Ramalho e Oliveira

Toda imagem pode ser considerada um texto e essa é uma reflexão sobre a significação de textos não-verbais. Trata-se de verificar, nesse caso específico, “o quê” diz uma imagem visual e, ainda, de tentar mostrar “como” ela fala.

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O objeto desta análise é um acessório de moda: um par de brincos dourados. Se observarmos imagens femininas na história, vamos encontrar, em diversos momentos, argolas douradas. E, se olharmos em mais direções, vamos encontrá-las, do mesmo modo, em distintos contextos culturais, eventualmente também como ornamento masculino, na forma de adornos análogos, como os braceletes e os cintos, que não deixam de ser espécies de argolas. E, em nossa volta, nos dias atuais, vamos vê-las aos montes, nos lábios, nos umbigos e em lugares ainda mais inusitados do corpo humano, seja ele de mulher ou de homem.

Não vamos aqui examinar um par de argolas específico, com uma textura especial ou com uma forma exclusiva que quebre o paradigma de argola (quero dizer, sendo aberta, oval ou sextavada, por exemplo). Vamos tratar de argolas mais convencionais: nem enormes nem pequeninas; mas redondas, lisas, douradas.

Inicialmente, vejamos os elementos constitutivos dessas argolas: linhas curvas que se repetem compondo um par, apenas. E a “cor”, o dourado, ou seja, o amarelo metalizado. Como se percebe, é um objeto conciso, sintético, de um certo modo, minimalista.

O que um objeto (ou um par deles) tão corriqueiro poderia significar?

Argolas, além de brincos, são aros e elos. Têm semelhança com anéis, fivelas, cacho de cabelos, alças, laços, círculos, curvas, voltas. E absorvem toda a carga semântica, ou os efeitos de sentido, desses outros objetos ou formas, que são análogos.

golden-hop1Argolas fechadas remetem ao sentido de proteção; abertas, ao de liberdade. E as argolas formadas por anéis de cabelo já foram muito usadas como identificação. Em francês, chamamos os brincos de “boucles d´oreilles”, literalmente, arcos ou fivelas de orelhas, o que alude à proteção das orelhas, também no sentido de afugentar o significado do que por elas passaria rumo aos ouvidos em forma de sons. Há, ainda, analogias com a fertilidade, pois a palavra “boucle” tem também o sentido de pequena boca ou de órgão genital feminino.

Anéis e brincos são conceitos que se confundem, portanto. Anéis são alguma coisa a mais do que simples adornos. Anéis também serviram, há tempos, para identificação, quando traziam o brasão da família ou as iniciais da pessoa, geralmente em relevo. Neste caso, serviam como sinete, isto é, matriz para impressão, sobre o papel ou lacre, dos dados de identificação, muito usados para selar compromissos.

Anel encerra o sentido de poder. O sucesso de público dos filmes da série “O Senhor dos Anéis” (The Lord of the Rings, no original em inglês) mostra a atualidade deste efeito de sentido, que atravessa o tempo e permanece nos mais distintos espaços. Possuir um anel pode encerrar a noção de ter poderes mágicos, de abrir portas secretas, de argola, de círculos, ringue, arena. Também tem os sentidos de toque ou ressonância de sinos, campainha ou carrilhão. São mais conteúdos que podem se somar aos efeitos de sentido de argolas douradas.

Nas Escrituras, várias passagens atribuem a sabedoria de Salomão a um anel que ele usava. E o anel papal, chamado anel do Pescador, é quebrado quando da morte do Papa, mostrando a quebra do vínculo entre Deus e os homens por meio do desaparecimento daquele ente.

Argolas ainda podem ser alianças, o que acrescenta uma nova bagagem de efeitos de significação a estes objetos. Entre noivos, são um acordo de fidelidade, mas podem ser interpretadas como a escravidão de um em relação ao outro. Em religiosos, é a submissão a Deus; as freiras são as noivas de Deus. Na prática da domesticação de falcões, a partir da colocação de uma argola na perna da ave, ela passa a caçar apenas para aquele respectivo dono. Algemas também são argolas. Assim, se diz que as argolas unem e isolam amo e escravo.

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A aliança, o anel ritual do noivado ou casamento, também remete à noção de compromisso. Aliança ainda pode ser um acordo, um pacto, em que grupos ou sociedades de posições diferentes se reúnem para ações conjuntas, geralmente tendo um objetivo comum. Daí veio o verbo aliar que segue o mesmo campo semântico.

Argolas também são elos – que indicam ligação. A palavra “elo” tem a mesma origem da palavra “anel”, pois ambas derivam do latim “annelu”. Já a palavra aliança vem sendo usada desde as Escrituras, pois Deus fez diversos pactos com os homens: as alianças.

Em síntese, além dos efeitos de sentido já mencionados, as argolas em forma circular aludem às idéias de ciclo fechado, ciclo solar, encerramento ou continuidade de circuito, eterno retorno, homogeneidade, sucessão contínua, totalidade indivisível, unidade, tempo, destino, sol, roda e movimento. Por fim, também remetem à idéia de perfeição, pois têm como base a figura geométrica que é considerada perfeita e, por isso, leva à noção de divino.

Com relação à cor, as nossas argolas imaginárias, relembrando, são douradas. Não sendo de ouro, mas de qualquer outro metal menos nobre, o dourado traz a “presença” do ouro e rouba dele a carga semântica. Como metal perfeito, por ser o mais precioso, o ouro guarda relações com o conceito de imortalidade. Do mesmo modo, a partir de conexões estabelecidas através do tempo, o dourado remete à nobreza, ao fogo, à luz, ao divino. E ao sol. E, conseqüentemente, ao se relacionar ao conceito de sol, o dourado alude às noções de calor, brilho, luz, conhecimento, riqueza, fecundidade, amor, dominação.

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Circulares são os planetas e também o sol, além do trajeto dos planetas em torno do sol. Contornar uma pessoa ou coisa é um modo de aprisioná-la. Elos unem. Adereços identificam, além de adornar. Metais são preciosos e a arte de formatar metal com vistas à produção de pequenos objetos exige maestria. É o fazer do ourives que agrega valor ao metal. Isto tem um custo e quem pode possuir esses objetos tem poder. Laços, alças, voltas, enfim, quaisquer linhas curvas sempre causam, ao olhar, a sensação de movimento, ao contrário das retas, que surtem o efeito de rigidez. Com esses exemplos, podemos observar que não são gratuitos os efeitos de sentido que as argolas são capazes de gerar.

Quando as argolas são douradas, essas linhas curvas perfeitas, as formas circulares, inter-relacionam seus significados com os do ouro. Dessas relações surgem novos efeitos de significação, como aconteceria com as relações entre formas e cores em qualquer outro objeto ou imagem. Mas nesse caso, como pode ser observado, alguns efeitos de sentido que emanam do ouro, ou do dourado, são coincidentes com certos significados das argolas, ou do círculo, embora outros sejam complementares.

Os significados da forma, reiterados pela cor – ou pelo material – potencializam esses efeitos de sentido. Talvez aí esteja a força da carga semântica das argolas douradas, especialmente no que diz respeito ao poder, à perfeição, ao divino e ao destino, tanto nas formas circulares como no ouro, que geram certo mistério em torno delas e justificam sua presença nas mais distintas culturas através dos tempos.

Aos designers, vale lembrar que argolas douradas não são só jóias ou bijuterias, como anéis, brincos e alianças. Aldravas – as antigas argolas de metal usadas para bater nas portas antes do advento das campainhas –, puxadores do mobiliário, aros de contornos de luminárias, acessórios de cortinas, detalhes da moda e óculos, entre outros, são objetos que podem consistir em argolas douradas. Ficam aqui disponíveis essas referências de significação para tais produtos e marcas que, pela sua forma e pela sua “cor”, assumem os mesmos efeitos de sentido que possuem os brincos e os anéis dourados.

Sandra Regina Ramalho e Oliveira

Doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, com pós-doutorado em Semiótica na Universitè des Sciences et Technologies de Lille, França. É professora do Centro de Artes da Universidade do Estado de Santa Catarina – UDESC.

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