O cinema nacional sofre historicamente com a falta de pluralidade em suas produções de maior circulação e não reflete a realidade da maioria da população brasileira. O estudo inédito da Agência Nacional do Cinema (ANCINE) sobre diversidade e gênero baseado na distribuição de longas metragens em cinemas comerciais de 2016 revela o motivo: a direção dos filmes é branca e masculina.

De 142 filmes analisados, 75,4% foram dirigidos por homens brancos. Enquanto, apenas 2,1% por homens negros e 19,7% por mulheres e desta porcentagem NENHUMA mulher é negra. Todas são brancas. Isto faz lembrar a história de resistência da primeira mulher negra a dirigir um longa-metragem no Brasil, a Adélia Sampaio.

Adélia iniciou sua carreira no final da década de 1960. Foi continuísta, maquiadora, câmera, montadora e produtora, passou por quase todas as funções dentro de um set de cinema, em mais de 70 produções, até chegar à direção.

Irreverente, inaugurou a temática lésbica no cinema brasileiro na década de 1980 com o seu primeiro longa, o Amor Maldito (1984). O longa é baseado em fatos reais ocorridos no Rio de Janeiro sobre a relação entre a jovem executiva Fernanda Maia (Monique Lafond) e a ex-miss, filha de um pastor evangélico, Sueli Oliveira (Wilma Dias), que acaba se suicidando. Apontada como culpada pela morte de sua companheira, Fernanda é levada aos tribunais e massacrada pelos valores machistas e moralistas da sociedade.

A Embrafilme — a estatal brasileira produtora e distribuidora de filmes da época — classificou o tema como absurdo e não ofereceu financiamento para o filme. Sem recursos financeiros, o longa foi realizado a partir da colaboração entre a equipe de elenco e de produção com apenas uma ajuda de custo.

Como o cinema nacional dos anos 1980 era dominado pela pornochanchada e nenhum cinema paulista aceitou exibir o longa, Adélia teve que ceder e divulgar o longa como um filme pornográfico para chegar ao público.

Isso mostra apenas um pouco da trajetória de Adélia, a cineasta depois disso dirigiu outros filmes, entre eles o documentário “AI-5, o dia que não existiu” (2004) e recentemente, lançou o curta “O Mundo de Dentro(2018). O filme aborda a geração dos anos 1960 e o abalo causado pelos casos de Aids que começaram a surgir no período pós-ditadura.