Antes do design existia um cérebro em funcionamento. Dito de outra forma, antes da manifestação do design existia uma massa orgânica tentando entender o que estava acontecendo e como ela poderia sobreviver. O design surgiu como uma forma radical de adaptação ao perturbador mundo exterior. A nossa conformação física evoluía tão lentamente que fomos ameaçados em diversas ocasiões de extinção total. Éramos vulneráveis demais, em comparação com outras espécies predadoras.

Aquela massa biológica em transformação permanente começou a gerar artifícios contra as extremas restrições existentes. Criamos instrumentos para aumentar as habilidades das nossas mãos, peles que nos agasalhavam, proteções para os pés, utensílios que melhoravam a chance de sobrevivência. Passamos de caçados a caçadores. Entramos em um regime de consumo de proteínas e nosso cérebro cresceu. Há dois milhões de anos atrás, um grupo de australopithecus se transformava em homo habilis, um hominídeo capaz de exercitar habilidades manuais e produzir instrumentos de pedra.

O processo continua o mesmo até hoje: diante de um problema, o cérebro elabora hipóteses e toma uma decisão que gera coisas que nos protegem, alimentam ou nos elevam. Design é uma capacidade de tornar tangível uma intenção de transformação. Nós imaginamos, projetamos um curso e desenvolvemos processos para materializar pensamentos. O design serviu para criarmos o artificial, aquilo que se opõe ao natural. O design é a medida do homem na natureza.

O ser humano é a única criatura viva capaz de, além de reagir ao meio ambiente, transcender às reações. Somos capazes de imaginar e inventar, de vivenciar nossos sonhos e desejos, projetando objetivos de vida, criando projetos que se tornam tangíveis. Somos uma espécie única, capazes de contar histórias, representar e criar símbolos, sempre por meio do design.

O exercício do design se entranhou na evolução adaptadora do homem, como uma habilidade tão intrínseca que nem percebemos a sua presença. No entanto, é tão onipresente que na mídia a palavra design é usada como substantivo, verbo ou adjetivo. O design ajudou o homem na construção de linguagens e códigos pelos quais nós nos expressamos. A criatividade humana encontrou no design a sua ferramenta favorita e incorporou-a nas mais diversas disciplinas.

Porém, o que era feito espontaneamente, em uma longa evolução mental, deve ser processado hoje por uma metodologia estratégica que encurte a ponte entre a intenção e a entrega da solução. O que mudou e continua mudando de forma incontrolável é a complexidade dos problemas e a necessidade de acelerar o processo criativo. Cada vez mais, a humanidade depende da diversidade de talentos criativos no lugar da capacidade de uma liderança controladora e específica. Precisa-se da colaboração entre os hábeis em pensamentos analíticos e os criativos do pensamento intuitivo.

Há exatamente 10 anos, uma empresa da Califórnia resgatou um neologismo usado esporadicamente e colocou-o no centro da sua experiência profissional. O “design thinking” surgiu para a mídia mundial, tornou-se um meme e vem sendo divulgado sem parar. Três semanas antes da redação desse artigo, a conceituada revista inglesa, The Economist, mostrou que “80% das autoridades locais britânicas têm redesenhado seus serviços nos últimos dois anos (por meio da metodologia do design thinking).” Diz também que o Britain’s National Health Service tem um Institute of Innovation and Improvement, que está lançando algo chamado de “design baseado na experiência”, em que os próprios pacientes e os funcionários trabalham juntos para repensar a forma como os cuidados de saúde são entregues aos usuários. Para finalizar, essa matéria revela que o primeiro ministro da Inglaterra tem assistido a seminários “sobre como o design thinking pode ser aplicado à ordem pública.”

A notícia é uma confirmação da tendência mundial sobre a percepção da importância do design como uma ferramenta que todos podem e devem praticar para ajudar na resolução dos problemas capciosos e crônicos que a complexidade humana produz. Não adianta somente protestar na rua, precisamos acreditar na hipótese de que os cidadãos, assim como os pacientes de um hospital, podem participar da melhora da entrega dos serviços públicos, de uma forma proativa e colaborativa.

Em minha opinião, a criatividade humana ainda é quase inexplorada. Precisamos mais de líderes criativos do que controladores. A maior aventura exploratória da humanidade somente começou: o conhecimento do cérebro como fonte de riquezas inesgotáveis.

Arte por: Fernando Ratis

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